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Trama Fantasma – Crítica do filme

Embalado por uma inebriante trilha sonora de Jonny Greenwood, Trama Fantasma, o oitavo longa do diretor americano Paul Thomas Anderson, pode afastar muita gente. E olha que não estou falando de uma aparente falta de momentos bombásticos, porque isso é simplesmente mentira. O filme contém uma carga de sexualidade e perversão tão impactantes que só não vê quem não quer. O real motivo para esse possível estranhamento por parte do público é a falta de intenções claras. Tudo envolto em uma atmosfera de um conto de fadas gótico com uma conclusão que pode ser até identificada como cínica.

Trama Fantasma não é o primeiro “filme inglês” de PTA apenas por ser filmado na Inglaterra ou por carregar inúmeras referências à filmografia britânica. A mais óbvia delas é ‘Rebecca, A Mulher Inesquecível’, de Hitchcock, mas além dessa ‘Desencanto’, de David Lean; ‘O Criado’, de Joseph Losey e (acredite se quiser!) ‘Laranja Mecânica’, de Kubrick. O que conta aqui mesmo é o que essas obras carregam de semelhante em suas almas: o desejo reprimido. Um fantasma presente, mas renegados às sombras de nossa persona.

Reynolds Woodcock (Daniel Day-Lewis) é um homem apaixonado pelo fantasma de sua mãe, a musa ideal para suas criações fashionistas que, depois da morte dela, busca incessantemente em outras mulheres. A porção da autoridade materna ele já tem na figura de sua irmã, Cyril (Lesley Manville), que comanda com mão de ferro seu império da alta costura. Mas lhe falta o Édipo, o desejo (quase) carnal por inspiração, que ele encontra na interiorana Alma (Vicky Krieps). No entanto, assim como aconteceu outras vezes, sua personalidade de prima-dona faz com que ele vá, com o tempo, se cansando de Alma, que, a princípio, parecia ser suficientemente submissa, mas que, na verdade, sabe muito bem o que quer.

Anderson escolhe os caminhos mais tortuosos para contar essa “história de amor”. A trama traz elementos sobrenaturais sem nunca deixar claro que o que se vê é real ou mágico. Maldições, mensagens escondidas, bosques cobertos de bruma, poções… Tudo se mistura nessa atmosfera de desejos latentes e reprimidos. Um jogo de aparências, de máscaras que nos afasta de quem realmente somos. No final das contas, o que Woodcock e Alma encontram um no outro é a liberdade. A liberdade de ser o que se deseja abertamente, mesmo que para tal sua relação possa ser vista como perversa.

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Rafael Argemon
Rafael Argemon é jornalista com mais de 15 anos de experiência em mídia online. Passou por portais como NetGol, Estadão, R7, MSN e UOL. Já atuou na editoria de esportes, TV, cultura e games. Também trabalhou como tradutor de filmes e programas de TV, traduzindo mais de 200 títulos entre ficção, documentários, animações, séries e reality shows. Atualmente é editor da Time Out São Paulo, publicação que faz parte de uma rede presente em mais de 50 cidades espalhadas por mais de 30 países.
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Rafael Argemon é jornalista com mais de 15 anos de experiência em mídia online. Passou por portais como NetGol, Estadão, R7, MSN e UOL. Já atuou na editoria de esportes, TV, cultura e games. Também trabalhou como tradutor de filmes e programas de TV, traduzindo mais de 200 títulos entre ficção, documentários, animações, séries e reality shows. Atualmente é editor da Time Out São Paulo, publicação que faz parte de uma rede presente em mais de 50 cidades espalhadas por mais de 30 países.