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Robert Zemeckis e as polaroides do tempo

Robert Zemeckis botou a lente no pulso de uma nação. Seus filmes podem não ser considerados exatamente emblemas de épocas por grande parte do público ou da crítica, mas dizem mais sobre as últimas décadas do século passado nos EUA que alguns de seus contemporâneos. Não funcionam como conceitos, apenas como momentos. A rapidez – e vapidez – do monte-desmonte dos 1980 e 1990 para os norte-americanos repercutiu como um sonar no resto das Américas; Zemeckis não analisou nada dessas besteiras, mas tirou as polaroides do baile.

Primeiro: Zemeckis não é heroico autor de sua obra, blockbusters não permitem esse grau de independência, mas há linhas contínuas nos filmes que não se pode ignorar. Segundo: favor descontar a óbvia generalização deste texto, tanto sobre filmes quanto ideias.

A influência cultural dos EUA sobre a América Latina atingiu o pico do mercado audiovisual entre 1982 e 2002, temporada que compreende explosão de vendas de vídeo-cassetes até difusão da internet. A cadeira de presidente dos Estados Unidos foi ocupada por Ronald Reagan(Republicano, 1981/1989), Bill Clinton(Democrata, 1993/2001) e George Bush(Republicano, 2001/2009) – George pai não interessa aqui. Nesse intervalo, o diretor lançou De Volta para o Futuro, Forrest Gump, Contato e Náufrago – bem como outros que não também não interessam aqui.

BTTFO cinema hollywoodiano dos anos 80 tinha como antecessores as putarias lisérgico-sexuais de fim dos 60 e a maturidade desiludida dos 70. Infantilizou-se e saiu à procura de papai, encarnado em Reagan e em sua política ultranacionalista de retorno à glórias passadas. De Volta para o Futuro (Back to the Future, 1985), desliza feito o skate de Marty McFly nessa levada e ganha o passado para o presente, obsessão da década. As aventuras de Marty – entra em máquina do tempo e volta para a juventude dos pais, tendo que ajudar papai a conquistar mamãe; às vezes, um Delorean é apenas um Delorean, diria por entre dentes Sigmund – paralelizam Rambo, de Sylvester Stallone: John Rambo retorna ao Vietnã e reverte a desgraça da década anterior; Marty retorna aos 1950 para ter certeza de que vai nascer. É na placenta, simbolizada por uma jaula(Rambo) e por um carro (De Volta para o Futuro), que as neuroses começam.

Forrest Gump e Contato(Contact) são filmes irmãos. Após a queda do Muro de Berlim, os anos Clinton sãoForrestGump financeira e politicamente excepcionais para os norte-americanos. O otimismo inocente-mas-não-muito do filme de 1994 inaugura o espírito aparentemente boa praça da nova presidência: muita champanhe e solos de sax (música e drogas figuram forte no roteiro do corredor-empresário-loroteiro Forrest). Quando do lançamento de Contato, já estavam todos chapados, transparente na história da caçadora de extraterrestres vivida por Jodie Foster. Porrada na caipiragem religiosa e na tacanhice de visão cósmica dão a tônica, otimismo delirante mais Carl Sagan que Bruce Springsteen. A América Latina destroçada pelas imposições econômicas vindas do norte assistia e cobiçava.

naufragoTrês anos depois, bateu o bode. Bush, chegando na mão grande à presidência, enquadrou a sacanagem que corria feliz. Náufrago (Cast Away) é o Zemeckis da hora, com jeitão de terra devastada: uma hora de filme com Tom Hanks sozinho em uma ilha, outra hora atônito tentando juntar os cacos. É o filme poster do teco pós-Clinton/pré-11 de setembro. China estava chegando – Hanks é resgatado do mar por cargueiro de conteinêres – e a maré definitivamente virando para o terceiro mundo. Zemeckis larga a câmera e se volta para a TV, que começaria no novo milênio época de ouro nos EUA., com a internet e a pirataria destroçando Hollywood.

Ultimamente, Zemeckis ainda solta umas besteiras, bastante insossas, como as animações-filmes dos últimos anos. Fiel à sua polaroide, filmou, recentemente, história sobre piloto negro bebum que pousava aviões de barriga para cima, no limite da catástrofe. Está longe de ser clássico sobre a era Obama, como fez anteriormente, o que é compreensível, dada a impossibilidade atual de um filme dar conta de uma época. Convenhamos, é melhor para todos.

Itamar Alves
Itamar Alves, infelizmente mora no Guarujá, mas compensa tendo nascido no Recife.
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