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Fragmentado | Crítica do filme

Fragmentado (Split, 2017), novo filme do roteirista e diretor M. Night Shyamalan, começa de maneira abrupta. Aos poucos, percebemos tratar-se de um final de festa onde uma das convidadas não era exatamente bem-vinda. Após aceitar uma carona oferecida, a adolescente é a única a notar algo errado no estacionamento, e a última a ser dominada pelo estranho que entrou no carro.

Essa introdução é filmada e editada de modo invertido. Sabemos quem é Casey (Anya Taylor-Joy), a garota sem amigos na festa, pela conversa entre duas amigas e um pai, quem lhe oferece carona. Sabemos da violência notada pela adolescente da mesma maneira que ela, apenas intuindo pelo que vê nos retrovisores do carro. Sabemos que o estranho a ataca apenas no momento em que Casey se faz presente para ele, ou seja, ela não era esperada naquela situação. Todas as conexões existentes no filme nos serão apresentadas pelo avesso, como um negativo de fotografia, até o fim.

O estranho no carro é Kevin Wendell Crumb (James McAvoy), que tem sua psique partida em 23 personalidades diferentes. Aparentemente descontroladas, Kevin pode variar em comportamento entre um garoto de nove anos ou uma senhora de 50. Na primeira metade do filme, as identidades mais aparentes são “o zelador”, “a madame” e “o garoto” – que crê, como toda criança, estar no controle do rodízio de personalidades. É o zelador quem rapta e prende as três adolescentes, a madame quem as prepara, e o garoto quem acena com uma fuga. Levadas para um abrigo subterrâneo, as adolescentes começam a compreender que o motivo de sua captura é serem oferecidas a uma nova e terrível identidade prestes a emergir.

 

 

A única pessoa fora do abrigo a intuir o que está acontecendo é a psiquiatra de Kevin, a doutora Karen Fletcher (Betty Buckley). Especialista em desordem identitária, a doutora pressente que seu paciente pode ser o responsável pelo crime informado pela televisão. Em suas sessões com o alter ego Barry, “o gay”, Karen procura achar um meio de navegar as personalidades de Kevin para ter certeza de sua intuição.

Sobre esses três personagens principais (Casey, Kevin et al, Karen), Fragmentado se desenvolve. Nota-se uma analogia com os três níveis mentais da psiquiatria moderna, os ego (Casey), superego (Karen) e id (Kevin). Por base desses elementos, o diretor conta a história com sua cinematografia característica, cheia de espaços subterrâneos, frestas e diálogos entreouvidos. A junção entre o real e o incrível, outra de suas marcas, é feita explícita na frase da doutora Fletcher aos congressistas que a ouvem explicar os resultados de seus estudos. Para Karen, entender a disjunção de identidades e seus efeitos materiais em um indivíduo, equivale a destampar os segredos do que chamamos de sobrenatural.

Kevin encarna o típico vilão de um roteiro de Shyamalan, um monstro no sentido etimológico da palavra. O termo “monstro” vem de “monstrare”, latim para “aquele que mostra”. Sejam os extraterrestres de Sinais (Signs, 2002), ou as plantas de Fim do Mundo (The Happening, 1998), o mal é o negativo direto do bem, e não apenas agente de destruição a ser combatido. Pelos encontros com seus nemêsis, os personagens de Shyamalan entendem a chave para suas vidas, as quais, invariavelmente, estão desequilibradas. O descompasso subjetivo manifesta-se no mundo real – como a tristeza diária de Bruce Willis em Corpo Fechado (Unbreakable, 2000) – e ameaça destruir tudo ao redor do personagem, que só encara uma saída a partir do embate com o seu negativo. Com o seu monstro.

 

 

Anya Taylor-Joy constrói uma Casey em linha com o comportamento que o filósofo Slavoj Zizek chamou de “a única dignidade possível atualmente”. Segundo o autor, na presente era de populismos e berros na vida e nas redes sociais, há que se recolher e estudar, para melhor observar. Casey não é neófita em relação a psicopatas, e suas memórias ao longo do filme nos mostram como ela tende a agir diante de ameaças perturbadoras. Como seu pai a aconselhou, Casey deve esperar aparecer a brecha em comportamentos animalescos para traçar suas rotas de fuga. Abstrair o caos ao redor é seu trunfo em comparação com as outras garotas. Na ultra-modernidade dos simulacros do real e virtual, difícil não empatizar com a personagem.

O show, no entanto, é de McAvoy. Seu(s) personagem(ns) fluem livremente na tela, e as portas dos compartimentos de seu esconderijo são metáforas exploradas inteligentemente pela edição do filme: a cada porta aberta, uma nova personalidade. McAvoy tem uma grande cena no filme, aquela em que a doutora Fletcher pressiona para que uma de suas personalidades (avatares?) se manifeste. Sem cortes, McAvoy realiza a troca de comportamento, usando apenas seu rosto e um par de óculos; a metalinguagem entre identidade, atuação, mente e corpo desliza tão calmamente quanto um aperto de mão.

A conexão direta do filme é com o universo de Corpo Fechado, como será revelado, mas, de fato, a ideia estrutural do filme encontra-se em todos os filmes do diretor. Desequilíbrio interno, perturbações externas, mulheres experientes que apontam o caminho para o protagonista, duelo com as próprias crenças etc., todos esses elementos fazem parte de uma obra que procura focar o descompasso entre o sobrenatural interno e externo ao humano. Essa disjunção acaba por invocar o “herói em negativo”, o monstro, uma espécie de terror que é, ao mesmo tempo, uma redenção. Na era da aceleração de tudo que diz respeito ao tempo-espaço, Fragmentado não é pouca coisa.

Com a colaboração da professora e pesquisadora Marília Lefevre Caiuby

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Fragmentado

Direção e roteiro: M. Night Shyamalan

Elenco: Anya Taylor-Joy, Betty Buckley, Brad William Henke, Haley Lu Richardson, Jalina Mercado, James McAvoy, Jessica Sula, Kim Director, Lyne Renee, Maria Breyman, Neal Huff
Duração: 117 minutos

 

Itamar Alves
Itamar Alves, infelizmente mora no Guarujá, mas compensa tendo nascido no Recife.
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