Análise | 10 anos do fim de The Wire

Há 10 anos, foi ao ar o último episódio de The Wire (The Wire, HBO, 2002), série em cinco temporadas produzida pelo canal HBO. Costuma-se celebrar apenas o aparecimento de produtos culturais no horizonte pop, mas, nesse caso, uma exceção será aberta: dentre as grandes produções da chamada “era dourada” da televisão norte-americana, The Wire paira no topo do Olimpo. Geralmente aclamada como uma das melhores de todos os tempos, a série revolucionou a maneira de contar histórias urbanas, ao agregar todos os elementos que constituem a mecânica das instituições ao coração do roteiro. Multifacetada e ostensivamente sem concessões a moralismos de qualquer espécie, The Wire estabeleceu crime e trabalho como os desafios principais de uma cidade do século XXI.

A série foi ao ar em 2002, quase um ano após a guinada do governo dos EUA para a guerra contra o terrorismo. Terminou em 2008, quando o governo do Rio de Janeiro lançou sua primeira Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), no morro Dona Marta. Hoje, em 2018, o combate internacional ao terror adquire características marcadamente urbanas, enquanto a metrópole carioca sofre intervenção militar. Uma década depois de seu fim, The Wire ainda não datou. Pelo contrário, teve seus temas ampliados em contornos caóticos. As transformações urbanas e as conexões entre os grupos sociais, em um ambiente de desmaterialização das certezas e seguranças construídas ao longo do século passado, foram o coração da série e são os grandes dilemas atuais.

Seu criador, o ex-jornalista David Simon, situou o roteiro em Baltimore, cidade portuária de grande porte. Portos são pontos de comunicação em escala mundial, um ponto explorado especialmente na segunda temporada, mas presente em todos os episódios. Seja a droga a chegar, os contêineres com tráfico humano ou a ascendência multinacional dos personagens, a série manteve uma escala tanto local quanto global, prenúncio de questões de segurança e geografia urbana em tempos de smartphones e streaming. A ligação desses pontos aos das instituições socialmente consolidadas foi um dos triunfos do roteiro.

A polícia em The Wire é constrangida pela burocracia estatal, que emperra em seus conchavos as estratégias das delegacias. Para cada aparelho de escuta ou munição de pistola há uma cadeia de eventos que atravessa as instâncias políticas dos três poderes da cidade. O progresso das investigações é ineficiente, ainda que produza algum resultado. Os criminosos tampouco estão melhor colocados, ainda que não amarrados a um sistema burocrático caquético. Nesse caso, são as condições que os impeliram ao crime que os mantêm instáveis: parca perspectiva de ascensão social, informalidade trabalhista, pouca ou nenhuma educação. Personagens como Avon Barksdale, desde a primeira temporada, tentam explorar as oportunidades do tráfico sem completamente desestabilizar seus entornos sociais. Ambos, policiais e criminosos, lidam com rompantes de corrupção e ganância, que constantemente ameaçam suas vitórias.

No meio da guerra às drogas está a população diretamente afetada, ou seja, a de áreas mais carentes. A série explora os meandros dessa vulnerabilidade, especialmente através dos marcadores sociais que constituem um bairro: escolas, igrejas, casamentos, famílias, trabalho. Invariavelmente, estes se encontram desestabilizados, caso das escolas, ou inexistentes, caso do trabalho. A devastação dos empregos e das garantias de bem-estar são os espectros que rondam as ruas infestadas de drogas de Baltimore, em clara metonímia à situação de qualquer metrópole atual. Sem assumir uma postura condenatória de quaisquer dos grupos, o roteiro abre-se às diversas vozes que compõem os ambientes e os deixa formar o mosaico que catapultou The Wire à sua aura de clássico moderno.

Portanto, se o leitor de Dimensão Geek ainda não conhece a série, a efeméride dos dez anos de seu final é a oportunidade que faltava. Após uma década, seus temas continuam ressoando nas metrópoles globais, talvez até mesmo na arquitetura virtual do universo online. Pode-se dar ao luxo de assisti-la em sua remasterização em alta definição, uma estranha metáfora de que The Wire tornou-se mais clara em suas imagens do verdadeiro submundo, ou seja, um espaço disputado por agentes sem a menor condição de ganhar, mas que não podem perder.

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Fabio Martins
Santista de nascimento, flamenguista de coração e paulistano por opção. Fã de cinema, música, HQ, games e cultura pop.