Folclore escocês é o mote de Espinho Rubro – O Beijo de Glasgow

Pessoalmente, eu gosto muito do selo Vertigo da DC Comics, tanto é que já comentei de algumas HQs mais recentes que saíram por ele aqui na Dimensão Geek, como Sala Imaculada e Suicidas, ambas publicadas pela Panini. O selo é um universo ótimo para captar novos leitores de gibis ou oferecer aquela escapada bem-vinda aos veteranos que desejam curtir uma história mais adulta nas quais sexo, nudez e violência não sejam impeditivos e façam parte da narrativa. Em uma comparação com o universo da TV, é quando você dá um tempo nas séries de super-heróis da Warner, mesmo adorando, e vai curtir alguma coisa passando na HBO.

Em Espinho Rubro – O Beijo de Glasgow, seguimos Isla Mackintosh, uma jovem desenhista ruiva que está viajando pela Europa procurando pistas do desaparecimento de sua irmã mais velha, Lauren, que sumiu na Escócia, pouco antes dela nascer. Logo no começo do volume, a personagem chega em Glasgow, onde Lauren estudava Arquitetura, e explica resumidamente a história revelando já estar no fim da jornada, desistindo da busca.

É quando conhece Alec em um show de uma banda cover do Nirvana e logo se apaixona pelo rapaz. Nesse capítulo, vemos também um dos erros do gibi: deixar explícito logo no começo que Isla, quando desenha pessoas, estas podem criar vida e integrar a realidade. Algo que a garota descobriu ser um problema assustador quando um dos seus desenhos, feito na adolescência, assassinou um professor de sua escola após passar a frequentá-la como se fizesse parte da turma desde sempre. A revelação repentina acaba quebrando o clima de mistério criado pelo sumiço de Lauren.

De uma promessa na qual nunca mais desenharia pessoas, Isla passa a fazer isso diariamente em um ano ao lado de Alec. O intrigante é uma figura masculina tatuada que sempre aparece na arte e nem ela mesma sabe o porquê de desenhá-lo com tanta frequência. O esboço, claro, ganha vida e revela ser o Espinho Rubro, um antigo deus ancestral onipotente, que está em guerra com outro de sua raça, Belatucadros, pela liberdade dos seres humanos. Tarado e canastrão, o Espinho arrasta a garota em uma história recheada de lendas folclóricas escocesas prometendo respostas sobre o paradeiro de Lauren.

Mas é aqui que a HQ escrita por David Baillie começa a derrapar de vez. O espinho Rubro é excessivamente caricato e sua libido desenfreada precisa estar exposta a cada duas páginas onde sobra até para o “Monstro do Lago Ness”, representado aqui como uma divindade feminina das águas. No último capítulo, a história abusa dos poderes de alteração da realidade de Isla e fica tão corrida que pede uma segunda lida para se entender direito o que aconteceu, deixando dúvidas, porém nada forte o suficiente que tenha me deixado ávido por um segundo volume.

Espinho Rubro – O Beijo de Glasgow tem a seu favor a bela arte de Meghan Hetrick (com o apoio de Steve Pugh e Esteve Oliff) e os insights de cultura pop, que trazem boas curiosidades para quem está lendo, principalmente sobre música e o folclore local. Entretanto, mostra que é preciso mais do que linguagem forte, nu frontal e temática demoníaca para se fazer um sucesso do selo Vertigo.

Ficha Técnica:

Título: Espinho Rubro – O Beijo de Glasgow Quadrinhos

Editora: Panini

Autores: David Baillie (roteiro) Meghan Hetrick (arte), Steve Pugh e Esteve Oliff (artistas convidados)

Capa: cartonada

Lombada: quadrada

Papel: LWC

Páginas: 148

Formato: 17 x 26 cm

Lançamento: abril /2018

Carlos Bazela
Jornalista e leitor compulsivo, gosta de cerveja, café e chá preto não necessariamente nessa ordem. Fã de boas histórias, principalmente daquelas contadas por meio de desenhos e balões.