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Dogma 95: Movimento comemora 20 anos

Os anos 90 do século passado foram uma várzea pra psiquê coletiva. Caiu o muro de Berlim e desabou o império soviético; neoliberalismo comeu solto na América Latina, depois do barba, cabelo e bigode Reagan/Thatcher; Celulares despontaram como produto de massa e, pelo meio da década, surgiu a internet. Para completar, celebrou-se o centenário do cinema. Tremendo ziriguidum, os anos 90.

Estava no ar o fim de uma era, com possibilidades abertas caso soubessem aproveitar. Pintaram os manifestos. Chame de febre do milênio, mas não faltaram anos-zeros para quem se envolvesse com arte naquele decênio: do manguebit pernambucano à artistas conceituais chineses, bando de gente lascou regras de como-fazer num documento, ecoando a Europa belle époque dos novecentos e dez e sua porralhada de conceituações cubistas, dadaístas, surrealistas e demais istas que hoje cabem num instagram. Pós-guerra, pré-milênio. É desses fuzuês que a gente vive.

Festa de FamíliaTudo para o alto nos 90, foi de canal insuspeitado que surgiu um dos manifestos mais interessantes: a Dinamarca nos legou o Dogma 95. Como Dimensão Geek é D de Dogma (sério, o chefe é tarado pelo cinema dinamarquês), é de bom tom marcarmos a passagem do marco zero dogmático, 13 de março, apresentação meteórica do manifesto em uma conferência parisiense sobre, vejam só, “possibilidades para o cinema em seu segundo século”.

O quiprocó foi arquitetado por Thomas Vinterberg e Lars Von Trier, este último, já na época, bem manjado por quem acompanhava cinema europeu. Basicamente, Vinteberg compilou 10 regras e quetais, cabendo a Von Trier, mestre da autopropaganda, apresentá-las efusivamente na dita conferência. O leitor de DG pode não acreditar, mas houve tempo em que revistas e debates de cinema eram semi-religiões, e a dupla de dinamarqueses meteu o pé na porta dos templos através dessa performance documento/apresentação. As regras do Dogma 95 eram:

1. As filmagens devem ser feitas no local. Não podem ser usados acessórios ou cenografia (se a trama requer um acessório particular, deve-se escolher um ambiente externo onde ele se encontre).

2. O som não deve jamais ser produzido separadamente da imagem ou vice-versa. (A música não poderá ser utilizada a menos que ressoe no local onde se filma a cena).

3. A câmera deve ser usada na mão. São consentidos todos os movimentos – ou a imobilidade – devidos aos movimentos do corpo. (O filme não deve ser feito onde a câmera está colocada; são as tomadas que devem desenvolver-se onde o filme tem lugar).

4. O filme deve ser em cores. Não se aceita nenhuma iluminação especial. (Se há muito pouca luz, a cena deve ser cortada, ou então, pode-se colocar uma única lâmpada sobre a câmera).
5. São proibidos os truques fotográficos e filtros.

6. O filme não deve conter nenhuma ação “superficial”. (Homicídios, Armas, Sexo, etc. não podem ocorrer).

7. São vetados os deslocamentos temporais ou geográficos. (O filme ocorre na época atual).

8. São inaceitáveis os filmes de gênero.

9. O filme final deve ser transferido para cópia em 35 mm, padrão, com formato de tela 4:3. Originalmente, o regulamento exigia que o filme deveria ser filmado em 35 mm, mas a regra foi abrandada para permitir a realização de produções de baixo orçamento.

10. O nome do diretor não deve figurar nos créditos.

Um luxo espartano, para dizer o mínimo. Não se tentava achar inocência perdida do ato de filmar/ver – essa já tinha sido estuprada por 100 anos -, mas de focar no que realmente interessava em uma suposta experiência fílmica: Os Idiotascâmera, roteiro, história, edição. Os penduricalhos (temporalidade linear, não ao filme de gênero etc.) eram biscoitos para os que gostavam de normatividade nerd. O que é um manifesto senão uma propaganda?

Faltava entregar o produto, e Dogme-1, “Festa de Família”, de Vinteberg, foi certeiro. Seguindo os conceitos esboçados, “Festa” é filme feio, mas fiel: a história sobre disfuncionalidades familiares (e sexuais), em dia de celebração do patriarca, é tão escura e pesada quanto a fotografia natural em que é contada. Von Trier, em seguida, soltou o Dogme-2, “Os Idiotas”, que não repercutiu tão bem quanto o filme de seu comparsa. Talvez seja hora de revisão: “Os Idiotas” é filme-manifesto, nuclearizando o próprio Dogma 95. Sempre o pessimista otimista, Trier filma grupo que ridiculariza a normatividade social ao comportar-se como deficientes mentais, dessa forma atingindo um nível possível de convivência. A barra pesa quando garota depressiva junta-se a eles. O segundo Dogma bate fundo na ideia dogmática de sociedade sã e anti-perturbações sensoriais que procuramos manter.

OOndas do Destinoutros cineastas pularam no bonde e mais Dogmas foram feitos. Alguns, como “Italiano para Principiantes”, francamente ruins. Curiosamente, Lars Von Trier não seguiria mais os preceitos estipulados à risca, embora seu filme seguinte à “Os Idiotas”, o poderoso “Ondas do Destino”, tenha quase todas as marcas do decálogo-manifesto, da fotografia natural com câmera na mão à roteiro linear. Vinteberg também abandonou o modelo Dogma, indo filmar em Hollywood e ainda lançando filmes interessantes, como o dinamarquês “A Caça”, de 2012.

A tecnologia surgida no final dos anos 90 permitia que filmes pudessem ser feitos em celulares, rendendo anacrônico o charme rústico do manifesto. A partir de 2000, com o cenário mundial tomado por manifestações, crise ambiental, guerra ao terror e fragmentação de zonas de poder, era hora de lançar o barco viking em águas menos plácidas que das quais brotaram o Dogma 95. Não era mais apenas cinema-vida, agora era vida-menos-vida, preocupação sistemática do cinema de Lars Von Trier no século XXI.

Itamar Alves
Itamar Alves, infelizmente mora no Guarujá, mas compensa tendo nascido no Recife.
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