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Crítica| Chroma Squad: Uma explosão de nostalgia

Lançado em 30 de abril no Steam, Chroma Squad, o mais novo lançamento da Behold Studios, produtora de Knights of Pen & Paper, permite que o jogador administre seu próprio estúdio de Super Sentai, em uma mistura muito interessante de gerenciamento, RPG Tático old school e pixel art, recheada de referências bem humoradas aos Tokusatsus, que fizeram tanto sucesso no Brasil na década de 90, e a cultura pop em geral.

Financiado através do Kickstarter, Chroma Squad arrecadou US$ 97.148 (bem acima da meta inicial de 50 mil), sendo o jogo mais vendido no Steam brasileiro no lançamento e um dos cinco mais vendidos no Steam norte-americano. Durante o desenvolvimento do jogo, a Behold Studios foi processada pela Saban Brands por violação de direitos autorais, pois o jogo era “parecido demais” com a série Power Rangers. O resultado foi que as duas companhias chegaram a um acordo, com a Saban recebendo royalties sobre as vendas do jogo e, bem ou mal, abaixo do logotipo foi incluída a frase “Inspired by Saban’s Power Rangers”, sem contar que o episodio foi incorporado de forma bem humorada ao enredo do jogo, com direito a algumas alfinetadas em relação a atitude da Saban.

Chroma Squad conta a história de cinco dublês que, cansados dos abusos do diretor, decidem abandonar o emprego e fundar seu próprio estúdio de TV. Ao iniciar o jogo pela primeira vez, assumimos o controle dos protagonistas durante a gravação de um episódio do show de TV Super Rangers, recebendo ordens do diretor, Dr. Mi Ah – Haim, lido de trás pra frente – que claramente dá mais valor a sequências de ação recheadas de explosões, acrobacias e efeitos especiais do que para a história em si. Esse prólogo serve também como tutorial, introduzindo as mecânicas do sistema de combate e cooperação.

Após a introdução, os cinco largam seus empregos e abrem seu próprio estúdio no galpão do tio de um dos atores. A primeira coisa a fazer é definir o nome do estúdio e da série – ou seja, o nome da equipe – as cores dos uniformes e o elenco, designando um ator para cada uma das cinco classes – lead, techie, assault, assist e scout – que representam a “função” de cada integrante do esquadrão. As opções de elenco são bem sacadas, fazendo referencias a celebridades como Scarlett Johanson, Mike Tyson e Wesley Snipes, além de incluir um Bruce Lee cover, Michonne da série The Walking Dead, um castor, um robô e até um alienígena. As possibilidades de customização da equipe são inúmeras, podendo ir desde um sentai “tradicional”, com o líder trajando vermelho e tudo mais, até combinações mais inusitadas, como, por exemplo, todos os integrantes usando a mesma cor; cores diferentes das usadas tradicionalmente; ou até uma equipe sem o integrante vermelho. Como a própria música tema de Chroma Squad diz, tudo depende do seu estilo. O único porém é que não é possível customizar o número de integrantes, sendo sempre um quinteto. Também não é possível customizar o sexto integrante do time (sim, a equipe ganha um sexto membro mais pro final do jogo).

O jogo é dividido em temporadas, cada uma contendo entre seis episódios. Os enredos dos episódios são bastante simples e usam e abusam de todos os clichês encontrados em uma série de Super Sentai/Power Rangers. Além de, nas primeiras temporadas, abordar de forma bem humorada as dificuldades enfrentadas por uma produtora indie. Por exemplo, em um dos capítulos os uniformes da equipe estão na lavanderia, resultando em um enredo em que eles não podem se transformar e por aí vai. Como mencionado antes, o processo sofrido pela Behold durante o desenvolvimento de Chroma Squad foi incorporado ao enredo, de forma que os atores recebem uma ameaça de processo de seu antigo diretor por plagiar os Super Rangers. Dependendo de como os jogadores decidirem como lidar com isso é possível enfrentar o Dr Mi Ah e seus bonecos de massinha.

A parte de gerenciamento é bastante simples, consistindo em basicamente responder e-mails , fazer melhorias no estúdio, contratar agências de publicidade para melhorar a audiência e melhorar os trajes e equipamentos da equipe – incluindo aí o robô gigante. Novos armamentos e roupas podem ser comprados ou produzidos, sim é possível confeccionar seu próprio equipamento entre uma gravação e outra. Os atributos dos personagens são melhorados exclusivamente pelos equipamentos. Cada melhoria no estúdio influencia o desempenho durante a gravação dos episódios – ou seja, nos combates – aumentando assim a audiência e o numero de fãs. Por experiência própria fica um aviso: cuidado na hora de comprar trajes e armas, pois NÃO é possível revender os itens para a loja. Equipamentos usados podem ser reciclados para obter matéria-prima para fabricar novos itens.

A ação acontece mesmo durante a gravação dos “episódios”, que segue a fórmula de RPG Tático por turnos no melhor estilo Final Fantasy Tactics do Playstation 1. A gravação geralmente começa com os heróis destransfomados, sendo necessário acumular um mínimo de audiência para “Cromatizar”. Cada ação realizada durante a batalha, como se mover ou atacar um inimigo rende pontos de audiência. O grande ponto forte de Chroma Squad é o sistema de cooperação, representado por uma estrela dourada no canto inferior direito da tela. Através dele é possível realizar manobras acrobáticas, ataques em 2, 3, 4 ou até mesmo 5 integrantes – ou seja, o ataque final da equipe. Além disso em cada episódio existem instruções do diretor a serem cumpridas, objetivos secundários que garantem um bônus de audiência, como ,por exemplo, derrotar um numero x de soldados no mesmo turno, manter toda a equipe de pé e, é claro derrotar o chefe com o ataque finalizador (fica aqui outra dica, por mais que seja tentador usar o golpe final logo de cara, usar fora de hora rende uma penalidade pesada na audiencia). Além dos golpes comuns e em grupo, cada personagem possui seus próprios golpes e armas especiais. No começo as opções ficam limitadas a espadas e pistolas, mas conforme a trama vai se desenvolvendo, cada “ranger” ganha acesso a armas e habilidades personalizadas. A ordem de ataque não é fixa, permitindo assim uma flexibilidade maior durante as lutas.

O segundo ponto de destaque da fase de combate de Chroma Squad é o Mecha, embora seja bem mais simplificado que o combate em grupo. Também realizado em turnos. Na fase de ataque do robô, basta pressionar o botão de ataque repetidas vezes, com o dano aumentado a cada golpe encaixado, e a chance de acerto diminuindo e é claro, além dos golpes normais existem os ataques finalizadores, incluindo o clássico ataque final com a espada.

Passando para os gráficos e sons, essa foi a parte onde Chroma Squad me ganhou logo de cara: na tela de abertura do jogo já entra a música-tema, cantada em japonês no melhor estilo das trilhas sonoras dos séries da décadas de 80 e 90. As músicas do game são todas em estilo 16-bits e também remetem bastante às músicas de fundo de batalha das séries da época (quer dizer, quase todas.. a música de fundo do estúdio parece mais aquelas músicas que tocam no cinema antes das luzes apagarem).

O jogo é todo feito em pixel art, no melhor estilo 8-bits, o que aumenta ainda mais o clima de nostalgia. O design dos personagens foi muito bem trabalhado, além dos diversos trajes, que vão desde armaduras de papelão e trajes de motoqueiro modificados, até autênticos uniformes de super-heróis. O mesmo se aplica aos monstros, que variam desde trajes bem amadores mesmo, com alguns dos primeiros monstros sendo literalmente um cara numa caixa de papelão e um cara fantasiado e Pula-Pirata, passando por tirações de sarro com personagens como o dinossauro Barney e Bob Esponja, até chegar em monstros realmente inusitados, como o Homem Ferro, literalmente um ferro de passar roupa gigante com os braços e as pernas dourados e luvas e botas vermelhas (lembra alguém?); um iPod gigante e, na minha opinião, um dos melhores, o Tigre RoboTira ou Tiger Robopolice em inglês. Os cenários possuem uma boa variedade, com as batalhas sendo travadas em um parque, em um canteiro de obras, no topo de um edifício e até dentro de um elevador. Alguns cenários tendem a ser usados mais do que outros, o que não chega ser uma surpresa.

Enfim, durante todo o jogo fica claro que a Behold apostou pesado no fator nostalgia, em um jogo que é além de um verdadeiro tributo não apenas aos Super Sentais, mas ao gênero Tokusatsu como um todo, um jogo bem-humorado, divertido e com uma boa jogabilidade. Em todos os aspectos, um jogo nota 10.

Francisco G. Prado
formado em Tecnologia Superior em Jogos Digitais pela PUC-SP, especializado em crítica de videogames, apaixonado por games e quadrinhos e escritor de fanfictions nas horas vagas.
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