Santo combate a intolerância religiosa em HQ nacional

Em janeiro deste ano, um terreiro de candomblé foi invadido em Nova Iguaçu (RJ). De acordo com reportagem do G1, só em 2018 foram registrados pelo menos 30 ataques desse tipo na Baixada Fluminense e zapeando pelo Google é possível ver que já havia registros de outras manifestações de intolerância contra religiões de matriz africana antes disso.

Capa da HQ brasileira Santo, da Guará Entretenimento

E o que isso tem a ver com HQ? Muito, se estivermos falando de “Santo”, obra com roteiro de Luciano Cunha e Gabriel Wainer, desenhos de Mikhael Raio Solar e cores de Alzir Alves. Santo narra a história de Salvador, um homem, que ainda criança, descobriu sua mediunidade de forma inocente, conversando com um espírito e vem tentando entender o porquê de ter acesso a esses seres de outro plano.

Salvador vive na periferia do Rio e salva a filha de uma mãe de santo em um desses ataques a terreiros e começa a investigar o que está acontecendo. Ele tem uma missão. E ela não se resume a caçar charlatães, como a Cigana Carmencita das primeiras páginas da HQ. Na verdade, por mais que tenha a certeza de ter sido escolhido para enfrentar um mal maior, o rapaz vive sozinho. Mergulhado em dúvidas que são muitas vezes alimentadas pela aparição que o acompanha desde moleque.

“Santo” alfineta. Em algumas passagens, reproduz jornais que dão nome aos bois a respeito dos ataques aos terreiros. Mas, antes que o leitor perceba – ou se sinta ofendido de alguma forma –, mergulha na ficção, mostrando uma seita nazista com ideias satânicas como a verdadeira responsável pelos crimes. Um universo fantasioso moldado dentro da realidade, como as gigantes Marvel e DC fazem há décadas. Mas de uma forma que faz o leitor brasileiro se identificar.

Com arte impecável, “Santo” é uma leitura ótima e rápida que deixa gancho para a edição seguinte. Rápida demais, até. Com um início bombástico e misturando elementos tão distintos, a HQ bem que merecia mais algumas páginas para o leitor mergulhar ainda mais no mundo do personagem. Mas, tirando isso, o gibi tem uma trama envolvente e com um potencial enorme também para fora do papel, sendo o ponto forte a caracterização do personagem principal, que lembra muito o Zé Pelintra, entidade do Nordeste brasileiro comumente incorporado nos terreiros do País.

Universo em expansão

“Santo” é uma das obras da Guará Entretenimento. A empresa se define como um núcleo criativo totalmente nacional, que cria, pesquisa e publica quadrinhos com potencial para fazer sucesso em outras mídias e tem como case de sucesso: O Doutrinador, filme que adapta o anti-herói criado por Luciano Cunha – e que nós falaremos mais pra frente aqui na DG, assim como as outras HQs da Guará.

Outro ponto importante é que os gibis não estão disponíveis em todas as bancas, mas podem ser comprados em comic shops e na internet por meio da Loja do Universo Guará.

Ficha Técnica:

Título: Santo

Editora: Guará Entretenimento

Autores: Luciano Cunha e Gabriel Wainer (roteiro), desenhos de Mikhael Raio Solar (desenhos) e Alzir Alves (cores)

Capa: cartonada

Lombada: 6 mm

Páginas: 48

Formato: 26x 17 cm,

Lançamento: maio / 2019

Carlos Bazela
Jornalista e leitor compulsivo, gosta de cerveja, café e chá preto não necessariamente nessa ordem. Fã de boas histórias, principalmente daquelas contadas por meio de desenhos e balões.