O Doutrinador é divisor de águas no quadrinho brasileiro

A corrupção na política brasileira já ganhou as manchetes de jornais daqui e do exterior mais de uma vez. Mas, e se um homem resolvesse encarar uma cruzada pessoal contra esse mal instituído no País mesmo que isso signifique abrir fogo – literalmente – em cima dos figurões que mandam no jogo. Estejam eles em suas enormes fazendas ou mesmo no Congresso Nacional?

Esse é o mote de O Doutrinador, HQ criada por Luciano Cunha, adaptada para as telas dos cinemas no fim do ano passado e que deverá virar série ainda em 2019. Recentemente, as três primeiras histórias foram relançadas em um volume único – à venda em Comic Shops e na Loja do Universo Guará, que ainda traz como extras notas e desenhos da produção do longa.

Munido apenas de uma máscara de gás caracterizada pelos dois olhos vermelhos acesos e um arsenal de fazer inveja ao Rambo, O Doutrinador cruza o Brasil de Norte a Sul matando e ameaçando políticos sem piedade. Tratado pelas autoridades como um terrorista e aclamado pelo povo, o personagem expõe a indignação da população com o que se vê em Brasília, independente do partido.

Com nomes fictícios, mas caras parecidas com velhos cohecidos do cenário político brasileiro, a HQ traz uma primeira edição catártica, com muita violência e um final que é, no mínimo, inesperado. Viajando em ônibus, metrô, trem, a grande sacada do Doutrinador é mostrar ele como um homem comum, que se esconde à plena vista em qualquer subúrbio.

Uma história mais densa

Na segunda edição, na qual o filme mais se baseia, vemos outra faceta desse Brasil fictício. Escrita pelo saudoso músico Marcelo Yuka, a história Deep Web mostra um novo Doutrinador recebendo a ajuda de um jornalista desempregado e um hacker para desmantelar uma quadrilha que está para tomar o poder no País. Sempre usando fatos reais como base.

Mais profunda e mlhor amarrada, a trama mostra o potencial do personagem para se transformar em uma série regular. Se antes seus métodos eram questionáveis, aqui eles são o único jeito de impedir que percamos o controle de tudo. Já na terceira história, com a colaboração de Gabriel Wainer, uma série de contos mostra O Doutrinador caçando de políticos a empresários corruptos, novamente com a narrativa visceral e a ligação direta com o noticiário político atual, como feito no primeiro volume.

Em O Doutrinador tudo tem razão de ser. Se a arte procura reproduzir locais e até carros – como o Opala bomba – facilmente reconhecíveis pelos brasileiros, o roteiro vai fundo na crítica sócio-política, utilizando passagens da nossa literatura e letras de peso do rock nacional, como do próprio O Rappa, como recurso narrativo.

Anti-herói precursor

O Doutrinador se tornou o primeiro de uma nova safra de personagens brasileiros. Integrado à Guará Entretenimento, o personagem recebeu o reforço de outras três HQs 100% nacionais: Santo, Os Desviantes e “Pérola”, que você confere (ou ainda vai conferir) aqui na Dimensão Geek.

Sempre criando histórias de ficção com base em fatos e na nossa realidade, a Guará é um misto de editora e núcleo criativo com um objetivo claro: o “transmidiation”. Ou seja, tudo que publicam em quadrinhos já é pensado para se tornar viável em outras mídias, como o cinema e a TV, a exemplo do que a Marvel vem fazendo com sucesso há 11 anos.

Gostando ou não do personagem, O Doutrinador atinge hoje um patamar no quadrinho nacional comparável apenas com o conglomerado gigantesco de Maurício de Souza com a Turma da Mônica. Mas, aqui o que fica claro é que o pessoal da Guará está mirando mesmo é nas gigantescas norte-americanas. E, pelo que está sendo mostrado até agora, eles têm tudo para agarrar esse mercado com unhas e dentes. E, esperamos, não soltar mais.

Ficha Técnica:

Título: O Doutrinador

Editora: Guará Entretenimento

Autores: Luciano Cunha, Marcelo Yuka e Gabriel Wainer (roteiro), Péricles Júnior (desenhos), Osmarco Valladão, Tiago Barsa e Alzir Alves (cores)

Capa: dura

Lombada: quadrada

Páginas: 236

Formato: 26,4 x 18 cm,

Lançamento: abril / 2018

Carlos Bazela
Jornalista e leitor compulsivo, gosta de cerveja, café e chá preto não necessariamente nessa ordem. Fã de boas histórias, principalmente daquelas contadas por meio de desenhos e balões.