João Torrentino Viu: Primeira temporada de Better Call Saul

Confesso que quando os produtores de Breaking Bad anunciaram o spin off Better Call Saul eu fiquei com o pé lá atrás. O recurso, além de manjado, é fadado ao fracasso. São poucas as séries derivadas que repetem o sucesso ou a qualidade da produção original. Mas o criador Vince Gilligan conseguiu. E com louvor, já que a primeira temporada mostrando o drama de Saul Goodman foi superior ao primeiro ano da luta de Walter White contra o câncer.

Inicialmente pode até parecer que as histórias são semelhantes já que ambos os personagens parecem descobrir uma outra personalidade que aparentemente não sabiam que existia. White tem Heisenberg e Jimmy tem Saul. Mas não é bem assim. A história dos protagonistas, que se encontram em Breaking Bad, é diferente em Better Call Saul.

No decorrer desta primeira temporada, somos levados a acreditar que algum fato será crucial na transformação de Jimmy McGill em Saul Goodman. Alguma coisa muito ruim acontecerá na vida do batalhador (e honesto) advogado que o levará a mudar de nome e mudará para sempre a sua personalidade, transformando-o em um trambiqueiro aproveitador.

Mas o grande mérito de Vince Gilligan é esconder do telespectador que, na verdade, Jimmy é o alter ego de Saul e não o contrário. Depois de aplicar diversos golpes em sua cidade natal e se livrar da cadeia graças ao irmão advogado, Chuck McGill, Jimmy ‘Sabonete’ McGill se regenera e segue a cartilha do irmão bem sucedido, deixando a criminalidade de lado, para se tornar um bom homem no Novo México.

E é exatamente esse renovado Jimmy que ficamos conhecendo em Better Call Saul. O Jimmy esforçado que trabalhava como contínuo no escritório de advocacia do irmão e que após conseguir seu diploma de advogado num curso por correspondência, tenta subir na firma, mas é impedido pelo sócio mala de Chuck.

Gilligan nos leva a ter simpatia por Jimmy e nos intriga com a sua história. Como esse cara honesto, trabalhador, que vive se ferrando e casos pequenos, que cuida do irmão (agora não sai mais de casa porque tem fobia de rua, eletricidade e magnetismo), que busca ajudar legalmente os idosos, vira o advogado picareta e fanfarrão de Breaking Bad?

Certa vez, na série Lost, o personagem Sawyer diz uma frase que pode muito bem ser aplicada nesse caso: “um tigre não muda suas listras”. E é aí que está a resposta. Depois de descobrir que o seu crescimento na empresa não foi obra do sócio mala de Chuck e sim do seu próprio irmão, Jimmy deixa o bom mocismo de lado e dá a entender que voltou a ser o Sabonete que futuramente será chamado de Saul Goodman.

Ao contrário das produções atuais que são narradas na velocidade da luz, com um milhão de coisas acontecendo ao mesmo tempo, o criador Vince Gilligan dita um ritmo lento, centrado em detalhes, em um ótimo texto, em diálogos marcantes, bela fotografia e elenco afiadíssimo e um protagonista maravilhoso e carismático (interpretado com maestria por Bob Odenkirk) para contar a história de Better Call Saul. Que venha logo a segunda temporada. Já estamos com saudades.

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Fabio Martins
Santista de nascimento, flamenguista de coração e paulistano por opção. Fã de cinema, música, HQ, games e cultura pop.