It – Capítulo Dois transforma o medo em um motivo de nostalgia

Após o primeiro capítulo, lançado em 2017, o hype do público subiu lá em cima com o reboot do filme It, gerando alta expectativa quanto a sua sequência. Era de conhecimento geral que as filmagens do segundo longa seguiram em frente desde que o projeto iniciou, afinal, as crianças estavam em plena fase de crescimento e logo não fariam jus às idades de seus personagens na linha do tempo, caso esperassem demais para gravar. E nessa questão, realmente, It – Capítulo Dois é impecável, assim como também na escolha das versões adultas dos personagens, e não só em questão de visuais semelhantes, mas porque cada intérprete captou muito bem os trejeitos e ações das crianças que representavam. É possível enxergar cada um dos integrantes do Clube dos Perdedores mesmo com a passagem de 27 anos no roteiro, fator que não foi tão bem trabalhado no filme homônimo de 1990.

Aproveitando o gancho, o Capítulo Dois tem cenas semelhantes com a obra cinematográfica antiga em relação ao futuro de alguns personagens, porém, foi além e conseguiu ser mais fiel ao livro de Stephen King em um caso específico, mantendo algumas características do enredo que foram modificadas nos anos 90. É legal notar que a proposta atual de dividir a obra em dois longas foi bem importante para isso, podendo explorar um pouco mais as identidades e vidas pessoais de cada papel, facilitando criar empatia com os personagens. Por outro lado, como o período em questão se passa em 2019, também houve atualizações quanto as profissões exercidas por alguns dos protagonistas.

Diferente do Capítulo Um, o segundo longa não é tão apavorante, ele carrega muito mais um sentimento de nostalgia da infância e busca por redenção perante um trauma. Essa amenização do terror, também se dá ao fato de que agora os personagens são entendidos quanto adultos que podem se defender de alguma forma (seja por força física ou mesmo pelo amadurecimento da mente contra o medo). Isso se distingue muito da sensação de angústia que o primeiro filme causava por se tratarem de crianças que ainda eram indefesas. Entretanto, pode se preparar para segurar firme a pipoca, porque rola jump scare durante as três horas que passará no cinema.

O que muita gente deve ter se perguntado é quanto ao famoso Ritual de Chüd, cerimônia para destruir o palhaço Pennywise, que é uma das grandes polêmicas do livro, pois se passa ainda na infância do grupo e se trata da perda da inocência a partir do ato sexual (realizado entre a personagem Beverly e cada um dos seis meninos), que garante a derrota do vilão, ao passo em que as crianças se desvencilham do medo com uma atitude que implica eu seus amadurecimentos. O que pode ser dito é: sim, o ritual está lá, mas algumas licenças artísticas foram tomadas a respeito dele, como, por exemplo, agora ele é performado pelos adultos e não espere que seja tão perturbador quanto na literatura.

O alívio cômico foi bem trabalhado no filme, tem algumas menções e uma participação especial inesperada que pode tirar risos da platéia, porém, vai para o personagem Richie, interpretado por Bill Harder, o grande destaque nesse quesito, a atuação dele está genial e impecável, lembra totalmente o ator Finn Wolfhard desempenhando o mesmo papel, porém melhorado, porque o estilo de piadas que o personagem faz são mais adequadas a um adulto que a uma criança, por isso mesmo Richie leva o apelido de Trash Mouth (Boca Suja). Além disso, conseguiram aprofundá-lo um pouco mais e dar um pano de fundo significativo e pertinente aos comentários sórdidos do personagem.

Seguindo a mesmo lógica de mudanças que vem para o bem, um dos personagem foi modificado de certa forma a perder sua característica sutil quanto à diversidade, fator que levantava especulações no livro, e era retratado implicitamente no filme noventista. O atributo deixado de lado, foi incorporado por outro papel no filme, e isso não é de forma alguma ruim, foi uma jogada bem feita e que funcionou favoravelmente para enriquecer a trama.

Fora Bill Harder roubando a cena com sua malícia cativante, seu xará Bill Skarsgard continua brilhando como Pennywise, James Hansone também está incrível e engraçado na pele do germofóbico Eddie, e James McAvoy consegue convencer que é realmente gago como Bill. Um dos únicos defeitos do filme é que alguns recursos gráficos não convencem e acabam soando quase como uma animação de uma produção infantil, mas, como um todo, It – Capítulo Dois é bem fechadinho e encerra a jornada dos perdedores com excelência e um saudosismo, já que não há continuação.

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Luna Rocha
Designer de moda e redatora, interessada por arte e cultura pop em suas mais diversas áreas. Curte adaptações literárias para o cinema e, se fosse uma heroína, seria Vampira de X-Men.