Império é a ousada história na qual o vilão venceu

Capa brasileira da HQ Império, da Mythos Editora

O vilão triunfou. Não há mais heróis. O mal venceu. Fosse uma HQ convencional, até o título desse texto seria um tremendo spoiler. Afinal, mesmo quem não está acostumado a ler quadrinhos sabe que a maioria deles se trata da luta entre um herói e incansável e, pelo menos, um vilão incorrigível até que o segundo seja detido por hora ou permanentemente.

Não em Império. Na história escrita por Mark Waid e desenhada por Barry Kitson, o vilão Golgoth já comanda o planeta há pelo menos uma década, após sobrepujar as principais potências do mundo, como bem explicam os recortes de jornais que abrem a HQ. O imperador é uma figura com visual que mistura medo e ostentação, com sua armadura em tons de azul e dourado e uma máscara de lentes vermelhas que nunca deixa ver mais do que seus olhos.

A ascensção dele ao poder é narrada por seu conselheiro de Assuntos Internos, Sebirus, um dos seus homens de confiança. Sebirus também apresenta os ministros do Império, que tal qual uma hierarquia do mal tem cargos de acordo, como Tumbril, o sádico torturador à frente do Ministério da Disciplina e Xanna, a ministra de Execuções.

Sebirus tem uma obsessão: não consegue abandonar a ideia de que alguém planeja matar Golgoth. O conselheiro sabe que seu senhor não é o tipo de comandante que se deixa pegar desprevenido, mas jurou não descansar enquanto não encontrar o responsável pelo possível atentado. Mas, terá ele razão ou foi vencido pela paranóia?

O mundo de Golgoth

Golgoth é viúvo. Sua esposa, Allorea, cometeu suicídio e há quem diga que o fato acelerou seus ímpetos de dominação global. O vilão é pai de Delfi, uma garota no final da adolescência que passa a maior parte do tempo confinada em seu quarto na Cidadela, a imponente fortaleza que ocupa a área onde outrora era o Central Park. Alheia aos feitos cruéis do pai e criada nesse clima quase monárquico, a menina vê nele uma figura firme de poder e adorada pelo povo, como os reis dos contos de fadas.

Contudo, como o mundo já descobriu, Golgoth e seus ministros são mal puro. E como colocar esse pessoal na linha? A resposta para isso está na Eucaristia, um ritual no qual o vilão entrega periodicamente a seus homens e mulheres de confiança uma droga, que aumenta a força, resistência, vitalidade. Mas, por conveniência, é completamente viciante, o que previne traições.

O Império amarra todas as pontas. Seja no tom messiânico do ritual da Eucaristia, na alta tecnologia com a qual eles contam ou nos outdoors que ostentam o momento no qual Golgoth deu cabo do herói Endymion, a organização deixa claro que se rebelar contra ela é inútil. E, mesmo assim, há pequenos focos de resistência, sendo o maior deles a Groelândia, que tem um plano ousado para dar cabo dos ditadores.

Personagens complexos

Embora equilibre muito bem sua narrativa adulta com violência, política e sexo, é na profundidade dos personagens que está o ponto alto de Império. Começando pelo próprio Golgoth, que mesmo mostrando apenas os olhos em alguns quadrinhos, passa a emoção necessária para expressar seus pensamentos. Já Delfi e os ministros preenchem capítulos inteiros do encadernado publicado pela Mythos com reviravoltas que fazem a HQ imprevisível do início ao fim.

Império também é uma HQ excelente mesmo para quem não é um leitor frequente do gênero. Com personagens memoráveis em uma trama original e impactante, o volume traz diversos elementos encontrados e adorados em outras obras da cultura pop, como Star Wars, Família Soprano e, claro, Game of Thrones. Títulos que nunca tiveram medo de serem lembrados pelo protagonismo de seus vilões.

Ficha Técnica:

Império
Autores: Mark Waid (roteiro), Barry Kitson (desenhos), Chris Sotomayor e Alex Bleyaert (cores), James Pascoe (arte-final)
Editora: Mythos
Capa: dura
Lombada: quadrada
Páginas: 204
Formato: 26,4 x 16,8 cm
Lançamento: setembro / 2017

Carlos Bazela
Jornalista e leitor compulsivo, gosta de cerveja, café e chá preto não necessariamente nessa ordem. Fã de boas histórias, principalmente daquelas contadas por meio de desenhos e balões.