Horo| HQ consolida trabalho de Fábio Coala

Horo – O Castelo da Neblina (edição independente, 2016) mantém e expande os elementos que fazem de seu autor um dos grandes roteiristas dos quadrinhos nacionais atuais. Criador de O Monstro, Fábio Coala gosta de subverter o esperado de seus personagens, e a saga do ornitorrinco samurai Horo é sua pièce de résistance: tudo que entra na história é processado pelos espelhos (de)formativos que seu criador distribui pelas páginas. Como o próprio Horo afirma, jamais julgue um livro pela capa.

Desde sua primeira obra, as obsessões do cartunista Coala são morte e amizade, conceitos que se anulam e se reconstroem. O Castelo da Neblina abre com ambos os temas, intercambiados e misturados ao drama e ao humor que são outra marca do autor. Esse jogo de opostos é o que mantém o roteiro do livro em constante movimento, assim como o samurai, que deve empreender sua jornada de conhecimento: tudo morre no roteiro o tempo todo; tudo é refeito pelo contato com o outro. Cidades, profissões, magia, bem e mal; nada é o que aparenta após um encontro entre os personagens.

Horo é um ornitorrinco calejado pelo bullying cotidiano sobre aqueles que não estão dentro do “normal”. Seus amigos de estrada não são muito diferentes, o que serve, no roteiro, a fazer com que o leitor (re)pense o tempo inteiro sobre as “certezas” que nos cercam. Questões de gênero, política, e sociedade são recortadas pela espada – ou pelo machado – do samurai e pelas armas de seus colegas, que buscam o reconhecimento pelo que são, e não do que devem ser. Nesse sentido, O Castelo da Neblina é altamente conectado com a atualidade, ainda que se passe em algum passado feudal imaginário.

Para além de dualidades ideológicas reducionistas, Horo faz o que de melhor se pode esperar de qualquer obra: que nos proponha questões. Estão lá um grande roteiro e o belo traço do autor, que sabe usar de modo genial os diferentes enquadramentos para modular as tensões da história, mas, em especial, o livro pulsa com o que vai se abrindo no caminho de seu personagem principal. A diversidade descoberta pelo nobre ornitorrinco, e, por extensão, pelos leitores, é extraída de explicações antes tomadas pelos personagens como definitivas: uma ponte que não se deve cruzar por causa de uma assombração; uma cidade que é acalmada por uma família de protetores; a existência ou não de uma entidade criadora dos subterrâneos do mundo. O autor subverte todas as expectativas e lugares-comuns que o roteiro propõe, que vão se empilhando até chegarem às torres entre neblinas de seu destino final.

Horo – O Castelo da Neblina é um dos grandes lançamentos de quadrinhos do ano. Espera-se que, como deixado a entender no final do livro, haja mais sagas do samurai ornitorrinco. Menos discursos de certezas e normalidades, mais espadadas de amizade e morte nas nossas cabeças, por favor.

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Fabio Martins
Santista de nascimento, flamenguista de coração e paulistano por opção. Fã de cinema, música, HQ, games e cultura pop.