Doutor Sono não alcança o patamar de O Iluminado e entrega obra muito rasa

Com estreia agendada para a próxima quinta-feira, dia 7 de novembro, Doutor Sono chega aos cinemas brasileiros para um público que nutriu grandes expectativas pelo lançamento do filme até aqui. O novo longa é uma continuação de O Iluminado (película do diretor Stanley Kubrick lançada em 1980), inspirada no livro homônimo do autor Stephen King, e acompanha a vida adulta do personagem Danny Torrence, presente também no primeiro filme, e o desenrolar de alguns mistérios da história.

As primeiras cenas do longa remetem diretamente ao seu antecessor, mostrando o que se passou nas vidas de Danny e sua mãe Wendy, após a sequência de acontecimentos aterrorizantes no Hotel Overlock. Apesar de terem sido escolhidos novos atores para ambos os personagens (uma vez que já se passaram quase quarenta anos do primeiro filme, e o cast veterano não poderia exercer papéis parados no tempo),  pode-se dizer que a produção conseguiu acertar o pulo com o elenco dos momentos iniciais, pois há muita semelhança física entre os novos escalados e os antigos artistas, além da interpretação também ter sido bem próxima da primeira versão.

É importante salientar que para assistir Doutor Sono, vale a pena rever O Iluminado, pois muitas referências podem passar despercebidas e vários eventos também acabam ficando sem nexo se o roteiro anterior não estiver recente na cabeça. Aí entra também dois fatores que são contraditórios: primeiramente, contando como um ponto positivo, o filme desvenda um pouco algumas questões que não ficaram muito claras no longa dos anos 80 e ficavam a par de interpretações por conta do público ou do conhecimento de quem acompanhou a obra literária. Porém, em contrapartida, o novo filme não explica alguns elementos inéditos, o que faz com que o universo de Doutor Sono fique meio perdido e defasado.

Ou seja, tanto para os fãs da versão cinematográfica de O Iluminado, como para os leitores da saga criada por King, Doutor Sono será apenas uma adaptação rasa e um breve passatempo para se assistir. O filme é confuso quanto à ambientação dos personagens e acontecimentos, como também seu enredo não abraça vários fatos presentes no livro, deixando de lado algumas pontas que poderiam ter ocasionado um roteiro ligeiramente mais interessante e profundo do que este que é apresentado. O próprio título do filme acaba sendo uma referência extremamente breve e de pouca importância por ser abordado de forma tão passageira.

A maioria dos efeitos visuais não impressionam e alguns acabam sendo até mesmo mal executados e de gosto duvidoso. Boa parte da computadorização gráfica gira em torno dos vilões do filme e, de certa forma, faz com que a credibilidade deles seja colocada à prova, porque além dos personagens serem mal introduzidos e suas origens não serem elucidadas, ainda de quebra parecem ter saído de um filme propositalmente trash quando seus olhos refletem um brilho sobrenatural extremamente forçado. Tudo bem que o primeiro filme se passava em uma época em que a tecnologia ainda não era tão avançada, e isso poderia até ser desculpa para os efeitos de baixo orçamento, mas o atual se procede no ano de 2019 mesmo, então essa justificativa não cola e deixa o estilo visual meio cafona.

Quanto aos atores, eles entregam o que o roteiro propõe, mesmo quando há reações exageradas da parte de alguns, se percebe que isso faz parte da linguagem, e não se espera que seja mais ou menos realista. Ewan McGregor convence como Danny adulto e a novata Kyliegh Curran consegue incorporar bem as diversas facetas que sua personagem Abra adquire no decorrer da trama. Há de se destacar que, durante o filme inteiro, a expectativa de rever o personagem de Jack Nicholson é bem grande, porém, no momento em que ele aparece, interpretado por outro ator (Henry Thomas, de Maldição da Residência Hill), causa um pouco de estranheza, mas até que funciona.

Como um todo, faltou muito a explorar para que Doutor Sono pudesse se tornar um clássico como O Iluminado foi, mas pode ser que o filme venha a ser uma ótima opção para assistir na Tela Quente em uma segunda-feira à noite.

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Luna Rocha
Designer de moda e redatora, interessada por arte e cultura pop em suas mais diversas áreas. Curte adaptações literárias para o cinema e, se fosse uma heroína, seria Vampira de X-Men.