Divinity questiona Deus e a ciência em HQ

Seguindo as dicas de HQs da Valiant Comics, falamos agora de Divinity, uma ótima história ambientada na Guerra Fria, mas nem um pouco debochada como Red Skin. E se você gostou do clássico 2001: Uma Odisseia no Espaço, de Stanley Kubrick (1968), vale a pena dar uma olhada no gibi publicado aqui pela Jambô Editora em 2017.

Na história, seguimos a trajetória de Abram Adams, abandonado na porta do ministro de relações exteriores russo enquanto era apenas um bebê, no inverno de 1941. Sem família, Abrams se torna propriedade do Estado e passa por diversos testes físicos e mentais para fazer parte de um programa supersecreto do governo: se tornar um cosmonauta. Como estamos falando do auge da corrida espacial e da especialidade do comunismo ser a propaganda própria, o fato deveria ser amplamente divulgado, certo? Mas não é bem isso que acontece.

Adams vai ao espaço em segredo, em uma missão prevista para durar décadas e alternando períodos desperto e congelado em sono criogênico. O objetivo? Ir até o limite do universo e voltar, uma façanha que ele realiza com sucesso. Contudo, ao voltar Abram Adams não é mais ele mesmo. E nem a Terra. Décadas se passaram e quando o cosmonauta aterrissa no deserto australiano, ele está além de um homem normal: sendo capaz de ler pensamentos e alterar a própria realidade a sua volta. Ele agora é uma divindade.

Medo e fascínio

Um dos melhores pontos do roteiro escrito por Matt Kindt é mostrar todas as reações que a chegada de Abram Adams na Terra cria. Governos enviam tropas para capturá-lo e até exterminá-lo, mas existem seguidores prontos para dar a vida defendendo seu novo deus.

Sobra então para a Unidade, superequipe de heróis da Valiant formada por XO Manowar, Ninjak (que já apresentamos aqui e aqui), Livewire e Guerreiro Eterno para avaliar e neutralizar a ameaça. Mas, falar é mais fácil do que fazer. E tudo muda de perspectiva quando eles chegam ao local.

Embora tenha momentos bastante clichês das HQs de superequipes, Divinity encanta pela narrativa, que é propositalmente confusa nas partes de deslocamento de tempo e espaço e pelos detalhes que ficam nas entrelinhas, como o fato de Abrams ser um homem negro e com nome estadounidense vivendo do outro lado da cortina de ferro. Seria ele realmente um escolhido ou apenas dispensável por sua cor e sua origem? E não só pelo fato de ser órfão?

Desenhada por Trevor Hairsine, com cores de David Baron e arte-final de Ryan Winn, Divinity é uma bela HQ que se resolve em si mesma, por isso é uma ótima leitura independente, ainda que traga outros personagens da Valiant. Com gancho para uma continuação – já publicada lá fora, mas bem arrematada ao ponto de não obrigar o leitor a conferir a sequência, o gibi termina como um bom filme de ficção científica: um final justo, que desperta o pensamento para discussões que não necessariamente têm uma resposta.

Ficha Técnica
Título: Divinity
Editora: Jambô
Autores: Matt Kindt (roteiro), Trevor Hairsine, (desenhos), e Jordie Bellaire, David Baron (cores) e Ryan Winn (arte-final).
Capa: cartonada
Lombada: quadrada
Páginas: 118
Formato: 27 x 18,5 cm
Lançamento: junho/ 2017

Carlos Bazela
Jornalista e leitor compulsivo, gosta de cerveja, café e chá preto não necessariamente nessa ordem. Fã de boas histórias, principalmente daquelas contadas por meio de desenhos e balões.