Dark se despede e se consagra com um final belo e triste

O conceito de que passado, presente e futuro acontecem ao mesmo tempo não é nenhuma novidade. Albert Einstein já tinha elaborado primeiramente a teoria do espaço e do tempo unificados em 1915 e o tema foi explorado com brilhantismo por Alan Moore em duas de suas obras-primas (“Watchmen” e “Do Inferno”) e Grant Morrison em “Os Invisíveis”. Dark, série alemã de enorme sucesso na Netflix, bebe do mesmo modo esta fonte, adiciona outros elementos a esse tema complexo e chega agora ao seu fim, com uma temporada muito bem elaborada, triste e encerrada de maneira brilhante, colocando a série como umas melhores produções da atualidade e deste serviço de streaming.

Nesse ínterim, o professor associado de filosofia do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), Bradford Skow, escreveu um livro onde defende o conceito de “bloco universal”. Nele, passado, presente e futuro existem simultaneamente, mas em dimensões diferentes. O tempo deve ser considerado como uma dimensão do espaço-tempo e, por isso, ele não “passa” por nós, mas faz parte do tecido maior do universo e não é algo que se move dentro dele. E foi exatamente usando esses elementos nas duas primeiras temporadas que Dark construiu, nesse meio tempo, de maneira brilhante envolvendo a pequena cidade alemã de Winden, a usina nuclear que a colocou no mapa e os conflitos das principais famílias que ajudaram a formar a pequena comunidade.

Universo Paralelo

Nesta terceira temporada, Dark adiciona um outro elemento que é igualmente tabu na física: a existência de um mundo paralelo, onde uma outra versão de nós mesmos vivem as vidas que deixamos de lado ao optar pelo caminho diferente daquele que seguimos aqui. Tema, que também já foi explorado por outra série de sucesso: “Fringe”.

E para complicar ainda mais um pouco, os produtores da série adicionaram a possibilidade dos personagens trafegarem ao mesmo tempo entre os dois mundos e viajarem no tempo dos dois universos. Confuso? Olhando dessa maneira até que sim. Mas depois de alguns episódios você se acostuma quem pertence a qual mundo e em qual mundo estamos por causa de pequenos elementos, principalmente baseados em cores e no clima de ambos os mundos. Um geralmente é chuvoso e outro mais quente.

A temporada final de Dark começa ao mesmo tempo que a segunda termina. Com Martha Nielsen (Lisa Vicari) do universo paralelo levando Jonas Kahnwald (Louis Hofmann) para seu mundo com a promessa de que ela sabe como terminar com esse looping infinito no tempo e, dessa forma, trazer e volta a sua amada, que acabou de ser assassinada pelo seu “eu” do futuro.

Novos personagens são apresentados e novas tramas, reviravoltas, planos e mistérios surgem, enquanto muitas das perguntas feitas nos dois primeiros anos são respondias. A princípio, ela parece confusa, mas no decorrer dos episódios, as peças vão se encaixando e quando você menos perceber ela caminha para um belo, porém triste, final.

Se a série no início segue a mesma filosofia do tempo unificado, do mesmo jeito que Watchmen e, portanto, não podemos mudar aquilo que já está traçado. Agora, com a descoberta desse novo universo e o real ponto de ignição onde o looping começou, ela enfim parte para o conceito que Robert Zemeckis implantou na saga “De Volta Para o Futuro”, onde o Dr. Emmett Brown (Christopher Lloyd) mostra para Marty McFly (Michael J. Fox) que nossas escolhas podem sim mudar o nosso futuro.

O poder do amor

Uma coisa que pode desagradar muitos fãs da série é que nem todos os personagens terão seus destinos revelados. Mas quem se permitir viver a experiência proposta, com certeza não irá se arrepender. Além de ser uma produção sobre viagem no tempo e mundos paralelos, Dark é uma série sobre o amor. E é este sentimento que move os principais personagens a encontrarem suas motivações para mudar o mundo em que vivem. É o amor de Jonas por seu pai Michael Kahnwald (Sebastian Rudolph) e por Marta. O amor dela por Jonas, sua família e amigos. O amor de Claudia Tiedemann (Julika Jenkins) por sua filha Regina (Deborah Kaufmann) e o amor do relojoeiro H.G. Tannhaus (Christian Steyer) pelo seu filho que é a força motora desses personagens para alterarem seus destinos, independente de qual mundo ou tempo eles estejam.

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Fabio Martins
Santista de nascimento, flamenguista de coração e paulistano por opção. Fã de cinema, música, HQ, games e cultura pop.