‘O Mundo Sombrio de Sabrina’ termina com enredo denso e deixa perguntas no ar

O Mundo Sombrio de Sabrina, uma das séries mais queridas do catálogo da Netflix, chegou ao fim. Ela entregou uma quarta e última temporada com oito episódios que fecham o ciclo da história da bruxinha. Muitas pessoas se perguntam até hoje o porquê do cancelamento da atração, já que ela fazia tanto sucesso e tinha um público fiel. Até hoje essa questão segue um pouco no ar, pois tanto o streaming quanto os criadores parecem se esquivar de dar depoimentos definitivos a respeito.

De acordo com a plataforma, Sabrina, assim como diversos outros seriados, sofreu com o período de quarentena. Isso fez com que a série perdesse estabilidade no cronograma de filmagens, fator que ameaçou sua continuidade. Sem falar que, no momento em que uma série ultrapassa o número de 30 episódios, outros fatores aparecem. Isso costuma acontecer a partir do terceiro ou quarto ano (dependendo do número de capítulos lançados em cada temporada). Por questões contratuais, os salários de elenco e produção passam a ficar mais caros. Com isso, há um investimento maior para fazer com que seja dado seguimento ao entretenimento. 

Contudo, isso ainda é considerada uma suposição. O próprio criador de O Mundo Sombrio de Sabrina, Roberto Aguirre-Sacasa comentou que a história foi contada da maneira que idealizou. Ele afirmou também que estava ansioso para que o público pudesse assistir a quarta temporada. Isso significa que o show foi finalizado por decisões puramente criativas de que ele não deveria se estender mais.

A quara temporada 

Para começar, vale lembrar que a temporada anterior havia introduzido o plot da jovem feiticeira. Interpretada por Kiernan Shipka, ela se dividiu em duas de si mesma, uma vez que não conseguia decidir seu futuro. Ou seja, não sabia se deveria ficar na Terra com suas tias bruxas ou reinar no inferno ao lado de seu pai, o próprio Lúcifer (Luke Cook). Nos primeiros episódios, já percebemos que Sabrina vai descobrir que não é tão simples imitar a Hanna Montana e ter o melhor dos dois mundos…

Encontro de Sabrinas | Foto: Reprodução

Enquanto Sabrina Morningstar se diverte como rainha do inferno; tendo a atenção de seu pai e súditos, Sabrina Spellman percebe que a vida em meio à humanidade não está lhe trazendo muitos bônus. Além disso, ela uma pontada de ciúme ao notar que sua sósia está se dando bem no pandemônio. Para piorar, ela ainda tem que lidar com a inveja que sente por ser a única personagem solteira entre todos os seus amigos. Seja no Colégio Baxter High ou na Academia de Artes Ocultas.

É evidente, logo de cara, que passamos a acompanhar apenas Sabrina Spellman, que permaneceu no mundo dos humanos; enquanto Sabrina Morningstar se torna tão coadjuvante quanto qualquer outro personagem do elenco fixo com menos destaque que a protagonista. Mas isso é apenas uma constatação. Porque o decorrer da narrativa funcionou muito bem com tal divisão de importância, a temporada está repleta de histórias interessantes e é bastante envolvente.

Problemas

É claro que há também aqueles episódios fillers que não são tão enraizados com a trama principal. Porém, eles não incomodam tanto quanto as forçadas de barra da terceira temporada. Elas não sustentaram o enredo criado e ainda tentava inserir cenas musicais a torto e direito; sem um contexto que desse uma abertura mais realista para elas. Podemos dizer que, como um todo, o quarto ano de Sabrina conseguiu se restabelecer no parâmetro de qualidade que havia estourado na estreia da série.

Ainda assim, há problemas de roteiro que soam pouco plausíveis e são facilmente identificáveis enquanto se assiste ao seriado. Primeiramente, alguns atalhos são tomados a ponto de determinados personagens aceitarem de forma muito rápida certas situações. Isso acontece sem que eles questionem muito ou pensem duas vezes. Porém, isso até pode ser relevado se pensarmos novamente que o show foi cancelado e provavelmente tal sentença acarretou na aceleração do andamento dos eventos. 

Uma questão que ficou difícil de processar foi o desaparecimento das figuras paternas e maternas do elenco coadjuvante. Afinal, diversas vezes no enredo se foi enfatizado que Sabrina e seus amigos ainda tinham dezesseis/dezessete anos e residiam com seus familiares. É normal que nessa faixa etária, os jovens estejam descobrindo seus corpos junto de seus respectivos pares. No entanto, a série vai longe demais nesse sentido e apresenta os adolescentes com uma maturidade sexual que não condiz com a realidade.  Cada um dos casais é mostrado constantemente dormindo na mesma cama como se já morassem juntos há tempo e isso não parece muito natural para a idade deles.

Os personagens Theo (Lachlan Watson) e Robin (Jonathan Whitesell) | Foto: Reprodução

Reflexão

Em se tratando de Sabrina Spellman, a insegurança da nossa heroína quanto a não ter um namorado é um foco forte durante alguns episódios e todas as suas conversas com seu clone são muito bem trabalhadas como um artifício metalinguístico, que busca dizer que ela não precisa se sentir mal por estar deslocada e sozinha naquele momento, pois tem a sua própria companhia. Essa reflexão acerca de amor próprio e autossuficiência se reforça também na trilha sonora da cena em que ambas Sabrinas dançam o hit de Billy Idol Dancing With Myself (Dançando Comigo Mesmo, em tradução literal), e se concretiza em dois impasses do enredo, nos quais a protagonista precisa tomar a frente em situações críticas (na Escuridão e no Vazio), resolvendo correr os riscos de forma isolada para que nenhum de seus entes queridos se machucasse.

Entretanto, toda essa construção da personalidade independente da garota parece que é totalmente em vão quando nos deparamos com um final no qual se rompe com a ideia de que ela poderia muito bem ter cumprido com o seu papel – e encontrado a paz e felicidade – desligada da necessidade de ter um interesse romântico. O enredo vai se apoiando nas escolhas individuais da protagonista de fazer o que é certo (mesmo que o custo seja muito pesado para ela sustentar sozinha em prol do bem estar de quem ama), para, no fim, nos depararmos com uma conclusão forçada que enfia goela abaixo uma inspiração shakespeariana, quebrando todo paradigma de empoderamento que havia sido erguido até ali.

Kiernan Shipka como Sabrina Morningstar e Sabrina Spellman | Foto: Reprodução

Fan Service

Já em questão de fan service, O Mundo Sombrio de Sabrina se recheia de referências à sitcom dos anos 90, inclusive com participações especialíssimas do elenco original, bem como ainda flerta com alguns filmes de horror como Carrie e lendas urbanas sobre músicos que venderam a alma para alcançar o estrelato no Rock’n’Roll. Além disso, há diversas citações à Disney no episódio número cinco, que são no mínimo curiosas!

As atuações estão de acordo com o que é esperado do estilo do seriado e, no geral, ele entrega o que se propõe, apesar de trazer um final que poderia ter encerrado uns minutinhos antes do plot twist e de deixar algumas pontas soltas que vamos debater abaixo na zona de spoilers…

Aviso: Zona de Spoilers, leia por sua conta em risco!

Para quem tem curiosidade com relação à comparação entre a série e as HQs em que ela foi inspirada, saiba que há diferenças bem atenuantes na história. Principalmente com relação às mortes e determinados personagens. 

Se você já assistiu à quarta temporada de O Mundo Sombrio de Sabrina, deve ter sentido uma pontadinha de dor no coração com os óbitos mais significativos: as duas Sabrinas e Nicholas Scratch (Gavin Leatherwood), que se sacrifica para viver seu romance com a loirinha no pós-vida (de acordo com os escritos bíblicos, tirar a própria vida é considerado um pecado e, com isso, a pessoa não subiria ao céu, mas o final não deixa claro se o local para onde Sabrina foi era realmente o paraíso ou apenas um limbo, sem falar que é uma série fictícia, então há a liberdade criativa). Nas histórias em quadrinhos, nem Sabrina nem Nick morrem (até mesmo porque Scratch foi criado para a série e não existe na graphic novel), quem realmente se vai é Harvey Kinkle (Ross Lynch), que seguia sendo namorado da bruxinha na mídia física.

Gavin Leatherwood como Nick e Ross Lynch como Harvey | Foto: Reprodução

Outros Personagens

Após os créditos rolarem na tela, você acaba sacando que a maior parte dos personagens seguiu seu caminho com seus pares românticos e outros apenas continuaram seus rumos por conta própria… mas, e aqueles que não deixaram bem claro o que viria a seguir?

Lilith (Michelle Gomez) foi uma das personagens que mais chamava atenção na atração inteira, ela teve muitos altos e baixos e, assim como Sabrina, também possuía uma sósia no mundo humano: a professora Wardwell – que entendemos que continuou a vida como regente da Igreja da Noite fundada pelo Padre Blackwood (Richard Coyle).

Porém, a última cena da Madame Satã nos leva a entender que, após ter se tornado também uma humana, ela estaria resgatando, assim, seus poderes sobrenaturais ao se alimentar do sangue de Lúcifer, o qual dominou e apunhalou para conseguir se restabelecer. O que viria na sequência disso? Lúcifer morreria e Lilith finalmente se tornaria a soberana do inferno? A personagem levou tanto tempo correndo atrás desse sonho, que é uma pena que não tenha sido retratada sentada no trono do mundo inferior no fechamento de seu arco.

Michelle Gomez como Lilith, a Madame Satã | Foto: Reprodução

Pergunta no ar

Outra pergunta que ficou no ar em O Mundo Sombrio de Sabrina foi quanto a um personagem bem secundário, mas que havia tido sua trama um pouco mais expandida em determinado momento, no caso, estamos falando de Robin (Jonathan Whitesell), o namorado duende de Theo (Lachlan Watson). Em certo ponto, Theo é avisado por uma duende fêmea que quanto mais Robin se mantivesse longe de seus iguais, mais ele iria perdendo suas características, as quais, de certa forma, eram atributos que lhe serviriam de proteção em meio às situações apocalípticas que aconteceriam em Greendale. O que isso realmente significava? Que ao permanecer longe da tribo, Robin apenas perderia seus poderes ou que se tornaria um humano com o decorrer do tempo? O que parecia uma questão de vida ou morte naquele instante, acabou sendo jogada às traças logo em seguida. 

Sabrina havia se dividido em duas almas para poder se fazer presente tanto com a família terrena como com a infernal. Após Sabrina Morningstar morrer, Lúcifer insiste que ela era a sua verdadeira filha, mesmo que a ideia tenha partido de uma única Sabrina original, o que tornava as duas tecnicamente a mesma pessoa. Além disso, Sabrina Spellman não havia realmente recusado a paternidade do demônio, o que ainda lhe daria a chance de ter relação com uma herdeira de seu próprio sangue. Então fica o questionamento: fazendo esse escândalo, Lúcifer estava sendo burro ou apenas ignorante? Okay, isso foi só um desabafo, haha!

Por fim, essas perguntas provavelmente nunca terão uma resposta agora que O Mundo Sombrio de Sabrina chegou ao fim. De qualquer forma, a trajetória valeu a pena pela Netflix ter tido o carinho de dar um ponto final e não apenas abandonar a bruxinha como fez com tantos personagens queridos de outros seriados.

Luna Rocha on FacebookLuna Rocha on Instagram
Luna Rocha
Designer de moda e redatora, interessada por arte e cultura pop em suas mais diversas áreas. Curte adaptações literárias para o cinema e, se fosse uma heroína, seria Vampira de X-Men.