Creed II aposta no melhor e no pior da saga de Rocky Balboa

Quando “Creed: Nascido Pra Lutar” (Creed, 2015) chegou aos cinemas, o desconfiômetro de muita gente foi lá em cima. A franquia Rocky estava desgastada (apesar do belo sexto filme da série, Rocky Balboa, de 2006) e um spin off baseado no filho de Apollo, o ex-campeão destronado pelo Garanhão Italiano, que mais parecia um remake, não era o suficiente para se criar boas expectativas. Ledo engano. O filme é ótimo, com um protagonista carismático que não apenas reverenciava o grande ídolo, mas também apontava um novo rumo para o legado. Pena que Creed II resolveu apostar mais no lado folclórico de Rocky III e IV ao invés de se dedicar mais ao que havia de interessante nas produções mais sérias da série.

Em Creed II temos finalmente Adonis Johnson (Michael B. Jordan) como campeão mundial de boxe (dos pesos pesados para ser mais exato e nem vamos entrar no mérito dele ser meio pesado no filme anterior) e que logo na sequencia recebe o desafio de Viktor Drago (Florian Munteanu), filho de Ivan Drago (Dolph Lundgren) – o boxeador que matou seu pai em uma luta exibição em Rocky IV (1985) e que depois foi nocauteado por Rocky Balboa (Sylvester Stallone) na antiga União Soviética.

Esse fiapo de trama é praticamente o que existe em Creed II, além da tradicional derrota, que faz o protagonista retornar às origens, se redescobrir como lutador e a volta por cima com um grand finale na casa do adversário, consagrando-o como o campeão inquestionável. Talvez a saída de Ryan Coogler (diretor de Creed: Nascido Para Lutar e Pantera Negra) tenha influenciado nessa queda de rendimento, perda de fôlego e apelo ao golpe baixo sentimental ao novo filme da saga, mas ainda dá para ver que nem todo seu trabalho foi deixado de lado.

Se formos analisar os filmes mais sérios da franquia, ela não é sobre boxe. Claro que as lutas são essenciais, é o momento máximo da consagração do personagem e conta com a trilha sonora fascinante durante os combates que faz o espectador vibrar na cadeira a cada golpe dado e recebido por Rocky ou Adonis. Mas eles têm muito mais a dizer quando foca nas relações pessoais dos personagens, seja ele Rocky Balboa, Adrian, Paulie, Robert Balboa nos seis primeiros filmes e Bianca, Mary Anne, Adonis Johnson, Viktor e Ivan Drago nos dois últimos.

A paternidade é a grande questão aqui e é ela que impede que Creed II caia na mesmice de ser apenas ‘mais um filme de boxe’. Adonis é ressentido por não ter sido criado pelo pai Apollo e mesmo chamando Rocky Balboa de ‘tio’, é nítida a relação entre pai e filho entre os dois. Mesmo que ela seja conturbada algumas vezes, é a única relação que restou ao septuagenário lutador, pois com seu único herdeiro, Robert, que também já é pai, ela é nula. Adonis vive outro drama paterno, dessa vez com a sua filha recém nascida, Amara que herdou um problema da mãe e nasceu surda.

Do lado oposto do ringue, temos a difícil relação entre Viktor e Ivan Drago. Este último, vive em desgraça desde sua derrota para Balboa e amarga um esquecimento de três décadas. Abandonados por Ludmilla Drago (Brigitte Nielsen, que aparece rapidamente no filme), pai e filho de maneira muito humilde e sozinhos, remoendo a derrota de 30 anos na esperança que a conquista do cinturão acabe com a frieza da relação entre eles, fazendo com que Viktor se ache digno do amor do pai e o “Expresso da Sibéria” finalmente enxergue seu herdeiro como seu filho.

Apesar da irregularidade, Creed II é um filme assistível, que diverte, emociona e empolga em determinados momentos. Não é preciso ser necessariamente fã de Rocky ou de boxe para apreciá-lo. Mas se você gosta de um ou dos dois desses fatores, sairá do cinema tão feliz quanto um boxeador que acabou de nocautear seu adversário.

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Fabio Martins
Santista de nascimento, flamenguista de coração e paulistano por opção. Fã de cinema, música, HQ, games e cultura pop.