Coringa é brutal, perturbador e maravilhoso

Não é nada fácil assistir a Coringa (Joker, 2019), filme dirigido por Todd Phillips que conta a (possível) origem do vilão mais emblemático da DC Comics e um dos principais personagens das histórias em quadrinhos. Pesado, brutal e perturbador, ele deixa o espectador desconfortável desde seu primeiro minuto ao mostrar uma pessoa doente sendo destruída aos poucos até chegar ao inferno.

A pessoa em questão é Arthur Fleck (Joaquin Phoenix), que trabalha como palhaço em uma agência decadente e mora com a mãe doente em um apartamento vagabundo, tentando lidar com seus problemas psicológicos enquanto sonha em se tornar um comediante famoso e se apresentar no talk show do seu ídolo Murray Franklyn (Robert De Niro).

O problema é que Fleck é um sujeito atormentado, que não se encaixa no padrão da sociedade, com um distúrbio psicológico que o faz gargalhar nas horas mais impróprias, principalmente quando está nervoso, triste ou ansioso, incapaz de se relacionar com qualquer outra pessoa e que vai se fundando cada vez mais por causa de uma série de fatores terríveis que acontecem em sua volta.

A sua sanidade mental, que já não era das melhores, começa a piorar quando uma de suas reações intempestivas gera uma tragédia que, aliada a outros “gatilhos”, acaba destruindo o que resta de Fleck e vem moldar o que conhecemos como a personalidade do Coringa.

Gande parte do sucesso do filme se deve a interpretação magistral de Phoenix. Acostumado a papéis difíceis, o ator se entrega de corpo e alma ao personagem e constrói um Coringa único diferente de todas as versões que vimos no cinema e se aproximando um pouco do que Alan Moore fez com o vilão na HQ de “A Piada Mortal”, de 1988.

A essa altura do campeonato todo mundo já sabe que, nas entrelinhas, Gotham City é Nova Iorque. Por isso o filme, com uma fotografia brilhante, retrata muito bem a Big Apple do final dos anos 70 e início dos anos 80, para mostrar a cidade violenta, imunda, decadente, corrupta, opressora, caótica e insegura que futuramente será vigiada pelo Homem Morcego. Importante ressaltar também como a fotografia vai mudando enquanto Fleck vai se transformando aos poucos no Coringa. Ela começa com tons bem escuros, principalmente quando está dentro do seu apartamento, com planos fechados, com muito close no rosto de Phoenix e depois vai se abrindo quando sua autoconfiança aumenta e ele está próximo de virar o Coringa. Tudo fica mais claro, mais vibrante e ele começa a ser visto de visto de baixo pra cima, se torna cada vez mais imponente em cena.

Embora não seja dito oficialmente, Coringa é claramente baseado em dois belíssimos trabalhos de Martin Scorsese e estrelados por De Niro: “Taxi Driver” (1976), que conta a história de um homem solitário, veterano da Guerra do Vietnã, que passa a trabalhar como taxista noturno que começa a se revoltar e enlouquecer por causa da miséria e a violência ao se redor, e “O Rei da Comédia” (1982), que conta a vida de um homem problemático, que mora com a mãe e sonha se tornar um comediante famoso e, para isso, sequestra o apresentador do seu talk show favorito para se apresentar neste programa.

Apesar de ser um filme brutal, o filme tem no máximo três cenas com violência física explícita. O chocante em Coringa é a violência psicológica e o humor, de certa maneira, constrangedor, que, ao invés de fazer o espectador gargalhar, deixa-o com vergonha alheia, do mesmo jeito que o comediante Ricky Gervais costuma fazer em séries maravilhosas como “The Office” (2001), “Extras” (2005) e “Life’s Too Short” (2011), além de, claro, suas impagáveis apresentações como Mestre de Cerimônia do Globo de Ouro.

A principal questão do filme é praticamente a mesma que acontece com Dani (Florence Pugh) em “Midsommar – O Mal Não Espera A Noite” (2019). Assim como a protagonista de um dos melhores filmes do ano, que finalmente se encontra e se livra da depressão no meio na comunidade macabra suíça, Arthur Fleck se perde no meio de sua insanidade ou é justamente nela que ele finalmente se encontra?

Fabio Martins on InstagramFabio Martins on Twitter
Fabio Martins
Santista de nascimento, flamenguista de coração e paulistano por opção. Fã de cinema, música, HQ, games e cultura pop.