Aves de Rapina coloca em pauta a luta feminina por independência, reconhecimento e igualdade

O que falar desse filme que nem estreou ainda e já considero pacas? Aves de Rapina: Arlequina e sua Emancipação Fantabulosa chega no Brasil no dia 6 de fevereiro com uma proposta bem diferente do longa que introduziu anteriormente a anti-heroína mais queridinha do cinema. Logo de cara se percebe que a produção deste novo título teve muito mais carinho e cuidado para que o produto final fosse bem autêntico e mais significativo. 

Para começar, a história já inicia sem citar nenhum acontecimento vivido pela personagem Harley (Margot Robbie) em Esquadrão Suicida, apenas menciona sua péssima relação com o vilão Coringa (durante um breve flashback de sua vida em forma de animação, ideia que ficou muito legal!) e para fazer referência a ele, utiliza o visual mais constante nas HQs, excluindo qualquer relação com o palhaço vivido por Jared Leto. Isso é um ponto positivo não apenas por se desvincular de uma atuação que não tinha sido bem recebida pelo público em geral, mas por nos transportar para dentro da mente de Arlequina com o intuito de compreender como ela própria enxergava seu o ex cônjuge. Nesse contexto, se torna plausível o Coringa ser uma memória ilustrada, uma vez que a obsessão dela pelo personagem fazia com que o imaginasse de forma idealizada.

Aproveitando essa deixa, é preciso falar do desenvolvimento dos acontecimentos do  filme, que é inteiramente narrado pela protagonista e provavelmente possa dar um nó na cabeça de algumas pessoas, mas faz sentido se pensar por uma vertente:  como tudo é mostrado e comentado pela Harley desde o princípio, não se pode esperar que a linha do tempo seja em ordem sequencial, pois sabemos que a personagem tem a cabeça claramente perturbada, após ter enlouquecido para provar seu amor ao Coringa. Logo, você assiste o filme diretamente de dentro da mente caótica de Arlequina, que não é nada linear e muitas vezes tem planos acelerados como seus pensamentos, também refletindo essa característica em sua forma de se expressar verbalmente (que, inclusive, às vezes é difícil de processar uma frase completa tão rápido, pois Harley fala freneticamente). Dentro deste âmbito também se encaixa a montagem cinematográfica, que tem alguns cortes abruptos de uma cena para outra, muitas vezes se completando esteticamente, e o design visual explicando partes da história na tela de uma forma simples e divertida (ao contrário das introduções sem graça em formato de cards que fizeram dos personagens em Esquadrão Suicida e davam o tom de “sessão da tarde” ao filme).

O longa se chama Aves de Rapina, mas todos sabemos que o plot principal do enredo é a emancipação fantabulosa de Arlequina, ou seja, é seu aprendizado sobre como se tornar uma mulher totalmente independente, após tanto tempo sendo escondida atrás de um homem que a desvalorizava. Porém, as aves entram no jogo como um apoio com base na sororidade, propondo que Harley não precisa passar por essa experiência totalmente sozinha, e que ela própria também pode ser uma colaboradora na emancipação das outras mulheres do filme. Quando foi liberado o título da obra, muitas pessoas se perguntaram onde Harley se encaixava no grupo Aves de Rapina, pois nas HQs ela não faz parte da equipe, então no longa sua presença serviu como uma forma de unir as outras garotas a partir dessa sua aspiração por autonomia feminina.

Um dos destaques desse filme é que o enquadramento das personagens tem como intenção refletir os sentimentos e emoções que conduzem elas, sem em momento algum se tornar um foco de câmera apelativo para zonas específicas dos corpos. Mesmo que, em alguns casos, haja sensualidade nas personalidades e figurinos das heroínas, isso é tratado com naturalidade como um atributo pessoal e não como produtos à mostra para arrecadar venda de ingressos em cima de sexualização. Aqui entra a realidade de que existem diferentes tipos de mulheres com variadas formas de agir, pensar e vestir, e é normal que algumas denotem sensualidade também, esse traço é de fato presente em muitas pessoas e ele não é errado, pois se sentir bem e bonita é importante, ainda mais em meio à tanta pressão midiática sobre a aparência feminina. 

A diretora Cathy Yan, junto com toda a equipe que criou a concepção das personagens, está de parabéns por saber abordar essa qualidade de maneira espontânea e sem soar em momento nenhum como algo de mal gosto ou exploratório. É notável que o olhar de Yan contribuiu para muitos aspectos, principalmente refletindo vivências angustiantes que as mulheres não escapam de passar em seus cotidianos. As cenas que abordam assédio moral e físico são bem tocantes, o que rende também cumprimentos para as atrizes, que souberam representar muito bem as situações de impotência que o público feminino vive diariamente por desrespeito ao gênero. Apesar do filme ser uma comédia com ação, a dramaticidade foi bem trabalhada e não perde seu valor por estar em meio a uma obra que, ao mesmo tempo, faz graça.

Entretanto, em meio a vários elogios, não pense que o longa vai ser a oitava maravilha do mundo, porque apesar de divertido e representativo, não se deve esperar que Aves de Rapina seja extremamente revolucionário. Ele se encaixa como um bom passatempo, mas não é um super ultra filme, porque seu roteiro não tem essa pretensão toda e, inclusive, propõe alguns acontecimentos previsíveis. No entanto, ele é gostoso de assistir, até porque o elenco é muito bem formado e atrativo, tornando difícil desgostar das performances apresentadas.

Margot Robbie consegue realmente sair do seu próprio corpo e entrar na mentalidade doentia da protagonista, todos os exageros de sua atuação são coerentes com a extravagância e insanidade de Harley Quinn. Isso difere do desempenho de Mary Elizabeth Winstead, cuja personagem Caçadora acabou entoando frases um tanto forçadas na tentativa de soar que, após a moça ter passado por um grande trauma de infância, seu ego parou no tempo e ela encarna reações ingênuas que parecem destoar de seu caráter severo. Winstead acabou servindo como alívio cômico, porém, a sobriedade lhe cairia muito melhor. 

Do restante dos coadjuvantes do filme não há o que se reclamar, Ewan McGregor é um vilão que, mesmo cheio de peculiaridades, é muito intenso e entrega cenas incríveis que te deixam com o sentimento contraditório de raiva e com admiração, pois não há como deixar de exaltar o profissionalismo desse ator. Além dele, há de se dar destaque para Jurnee Smollett-Bell, intérprete da Canário Negro, que tem um papel bem essencial na trama e, com isso, bastante tempo de tela, que em nenhum momento é desperdiçado, porque a atriz se entrega totalmente à história.

A diferença étnica dessa personagem em relação à HQ não interfere em nada e esse debate sobre representar literalmente a referência visual nunca deveria entrar em pauta, ainda mais nos dias de hoje. A única ressalva quanto a essa nova versão da Canário é que ela parece uma heroína diferente em questão de personalidade, a adaptação não ficou tão próxima do que era apresentado nas animações e quadrinhos, que traziam uma mulher cujo atrevimento era bem mais marcante nos trejeitos. Não teria problema em ela ser um pouquinho mais mordaz, assim como também não sofre grande perda em trocar essa característica por um gênio mais marrento, apesar de descaracterizar um pouco, a personagem é muito cativante do jeito que foi reelaborada.

Por fim, mas nem um pouco menos importante, é preciso de uma salva de palmas (mas por favor não faça isso no cinema! Haha) para o figurino e fotografia, que casam demais em cores vivas e exuberância, e para as sequências de lutas do filme, que estão muito bem coreografadas, realistas e bonitas de verdade! Sem falar que são sempre embaladas por boas músicas. Vale lembrar também que a trilha sonora é inteiramente composta por vocais femininos, com uma canção da Kesha como encerramento, provavelmente fazendo um paralelo com a bagagem pessoal da cantora, que tanto já sofreu por ter sua história de abuso questionada, com o propósito de reforçar a voz das mulheres e a luta diária por respeito e igualdade. Independente se o enredo é fraco ou não, a mensagem é certeira e poderosa.

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Luna Rocha
Designer de moda e redatora, interessada por arte e cultura pop em suas mais diversas áreas. Curte adaptações literárias para o cinema e, se fosse uma heroína, seria Vampira de X-Men.