Authority é anarquia inteligente em HQ de super-heróis

O que você faria se estivesse no comando de um panteão de superseres com poderes suficientes para mudar de uma vez por todas a balança de poder do mundo? Derrubaria governos? Viajaria para terras paralelas? Tomaria porres homéricos? Se você respondeu todas as anteriores, então leia urgentemente Authority. Republicada no Brasil pela Panini – antes saiu aqui pela Devir – em quatro volumes, a série é criação de Warren Ellis, Bryan Hitch e Paul Neary e mostra uma superequipe disposta a fazer do mundo um lugar melhor custe o que custar.

Criada originalmente para o universo da editora WildStorm, que foi posteriormente comprada pela DC Comics, o time traz Jenny Sparks, Jack Hawksmoor, Swift, Apolo, Meia-Noite, Doutor e a Engenheira. Em uma primeira olhada, parece uma caricatura da Liga da Justiça, principalmente com a presença de um herói com poderes energizados pelo sol (Apolo), um soturno e violento vigilante, versado em todo e qualquer estilo de luta (Meia-Noite) e a presença de uma mulher-pássaro (Swift).

Mas as semelhanças terminam aí. Ao ler o primeiro volume, já dá pra perceber que o Authority não é a Liga. Ao lidar com super terroristas comandados pelo ditador Kaizen Gamorra, os heróis mostram que estão dispostos a tudo quando o assunto é proteger pessoas inocentes ao redor do mundo. Tudo mesmo, incluindo acabar com os vilões de formas criativas – e bem violentas. E para levar seus ideais de justiça a qualquer lugar, o grupo ainda tem como base A Balsa, uma nave com quilômetros de extensão, que navega pela sangria, o hiperespaço entre as dimensões do universo, podendo abrir portas dimensionais em todas as partes do planeta ao mesmo tempo.

Personagens singulares

Mesmo com toda essa comparação com a Liga da Justiça, Authority tem personagens bastante originais. Começando pela intrépida e desbocada líder Jenny Sparks. Com poderes elétricos, ela é “o espírito do Século XX”. Nasceu no primeiro minuto de 1900, na Inglaterra e parou de envelhecer aos 20 anos. Em seus quase cem anos – as histórias do grupo vão até os primeiros meses do ano 2000, a moça participou ativamente de diversos momentos que acabaram definindo o curso da História.

Jack Hawksmoor é o homem das cidades. Graças a cirurgias feitas – contra sua vontade – por alienígenas, ele é capaz de ouvir e sentir as metrópoles. Bem como comandá-las da forma que achar melhor. Seja criando um exoesqueleto de concreto ou simplesmente mandando uma parede desabar em cima de alguém. Hawksmoor também pode viajar entre elas quase que instantaneamente.

Apolo e Meia-Noite, entretanto, são uma alusão clara ao Superman e ao Batman com um detalhe importante: eles formam um casal e são um grande passo em representatividade LGBTQ+ nos quadrinhos. Durante as aventuras do grupo, inclusive, acompanhamos boa parte da vida a dois deles, indo desde o casamento até a adoção de uma menina – com papel surpresa e crucial na história. Tudo isso sem deixar de lado as missões ao lado da equipe.

Há ainda o Doutor, que se define como o grande xamã da Terra. Um homem que recebeu de entidades sobrenaturais poderes e conhecimento inconcebíveis para cuidar do planeta. Tudo perfeito se ele não fosse um viciado em heroína lutando para vencer sua compulsão pela droga entre uma batalha e outra.

Histórias polêmicas

As histórias do Authority se destacam pela diversidade dos temas. Nas páginas dos gibis do grupo, temos desde aventuras em universos paralelos, onde aliens se misturaram à raça humana e planejam uma invasão, até deter o ataque a um ser espacial. Com forma geométrica, ele chega para conclamar a Terra e transformá-la no ambiente inóspito que ela era quando essa mesma criatura a criou, milênios atrás. Ou seja, para proteger a raça humana, eles precisam enfrentar algo que é o mais próximo de Deus que já apareceu por aqui.

Há ainda a mão pesada no discurso político. Seja nas ações do grupo para derrubar um ditador do Sudeste Asiático, acolhendo milhares de refugiados em sua própria nave, ou para ameaçar as pessoas que comandam o mundo. Irritando o seleto grupo de nações mais ricas, claro.

E, ainda que façam bastante referência ao Stormwatch, a antiga equipe de superseres do universo WildStorm – que nós vamos falar em breve aqui na DG – Authority pode ser lido e compreendido até por quem nunca abriu uma HQ antes.

Assim, Authority é uma obra que vale horas de leitura e reflexão. Principalmente nestes tempos, nos quais uma HQ pode ser censurada dentro de um evento do porte da Bienal do Rio. Apenas por conter um beijo entre dois personagens do mesmo gênero, sem qualquer conotação sexual.

Ficha Técnica:
Título: Authority
Editora: Panini;
Autores: Warren Ellis, Mark Millar e Tom Peyer (roteiro) Bryan Hitch, Dustin Nguyen, Frank Quitely e Chris Weston (desenhos) Paul Neary, Trevor Scott (arte-final);
Lombada: quadrada;
Capa: cartonada
Páginas: 204, em média;
Formato: 26 x 17 cm;
Lançamento: fevereiro/2016 (volume 1), julho/2016 (volume 2), outubro/2016 (volume 3) e janeiro/2017 (volume 4).

Carlos Bazela
Jornalista e leitor compulsivo, gosta de cerveja, café e chá preto não necessariamente nessa ordem. Fã de boas histórias, principalmente daquelas contadas por meio de desenhos e balões.