Devs|Minissérie discute determinismo e livre arbítrio

Independe de gostar ou não do de Alex Garland, Ex-Machina (2014) e Aniquilação (2018), é correto afirmar que ele é um dos nomes mais promissores da ficção científica contemporânea, onde usa o gênero para discutir temas que vão além da tecnologia, inteligência artificial e a relação entre homem e máquina. Em Devs, minissérie que estreia nesta quinta (27 de agosto) no Fox Premium, ele toca em diversos temas como religião, espionagem, determinismo, livre arbítrio, física quântica, multiverso e filosofia.

Antes de mais nada, pode parecer estranho num primeiro momento, mas a história de Devs, que tem oito episódios, sendo todos escritos e dirigidos por Garland, é mais simples do que se imagina, discute questões relevantes e deixa um final aberto para o espectador refletir.

Enredo

Na minissérie, Lily (Sonoya Mizuno) quer descobrir o mistério por trás da morte misteriosa de seu noivo Sergei (Karl Glusman). Ambos trabalham na Amaya, uma empresa de tecnologia comandada pelo enigmático Forest (Nick Offerman). Contudo, ao ser promovido para ir para Devs – a divisão secreta de Amaya – Sergei desaparece no primeiro dia na nova função e aparece morto 24 horas depois do desparecimento.

O que é Devs?

A medida que Lily começa a investigar, vamos descobrindo sobre o passado de Forest e ao mesmo tempo a dimensão do seu trabalho realizado nessa divisão secreta. Mas o que seria Devs? Em um ótimo diálogo entre Lily e Katie (Alison Pill), uma das mentes por trás do projeto, resume bem o que é a iniciativa, defendendo a tese de que nada acontece por acaso. Ou seja, não existem eventos aleatórios, e sim uma razão para tudo acontecer. Ao rolar uma caneta na mesa, ela explica, dessa forma, para a funcionária.

“Você pergunta o que é Devs? Isso é Devs. Esse é o único princípio que você precisa entender. Nada acontece sem uma razão. Tudo foi determinado por algo previamente. Você viu a caneta rolar sobre a mesa. Agora, pegue um computador. Dê a ele todos os dados que existem sobre o rolar dessa caneta na mesa. Sua trajetória, velocidade, a massa dos seus componentes, a estrutura atômica… O que o computador pode te dizer agora? Pode te dizer a intensidade na qual a caneta foi submetida e quando ela irá parar de rolar. O computador consegue projetar o passado e o computador consegue projetar o futuro. Agora faça isso com tudo. Não só com a caneta, mas com tudo. Isso é Devs.”

Determinismo x Livre Arbítrio

Assim como foi discutido na terceira temporada de Westworld, Devs traz essa questão para o centro do debate. O livre arbítrio seria uma ilusão? Ou tudo o que acontece posteriormente ao Big Bang é pré-determinado e não temos nenhum poder, na verdade, sobre nossas escolhas. Será que nós apenas fazemos tudo o que já estamos predestinados a fazer? Desde as tomadas mais importantes de nossas vidas como também as menos importantes, como bocejar ou tossir? Ou somos realmente livres e capazes de tomar nossas próprias decisões, fazer nossas próprias escolhas? Devs seria, enfim, capaz de encerrar essa discussão de uma vez por todas.

A motivação de Forrest com o seu projeto vai além do científico. O CEO da Amaya procura uma explicação lógica para tentar entender uma tragédia pessoal que mudou sua vida para sempre. A sua eterna busca para aliviar essa dor é também uma das razões pela sua devoção à Devs. Novamente Katie, é a pessoa que mais entende isso e resume em outro belo diálogo, mas agora com o seu chefe:

“Devs é a forma que você se julga. É julgamento e júri. Se funcionar, o determinismo impede o livre arbítrio e você está absolvido. Não fez nada de errado. Se não funcionar, você teve escolhas. E você é culpado.”

O ritmo lento da minissérie é essencial para o desenvolvimento da trama e dos personagens. Pode parecer, assim, muito devagar para quem não está acostumado ou prefere algo mais frenético repleto de ação. Mas quem deixar se envolver pela história, pelo questionamento e pela proposta desse novo trabalho de Garland não vai se arrepender.

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Fabio Martins
Santista de nascimento, flamenguista de coração e paulistano por opção. Fã de cinema, música, HQ, games e cultura pop.