A Forma da Água | Crítica do Filme

O monstro representa nosso lado primitivo, que age por simples impulso, traz consigo o caos, a quebra das convenções. Ele nos amedronta porque é o símbolo de nosso elo com o mundo animal, ao qual tentamos nos convencer que de que não fazemos parte. A razão nos faz superiores, evoluídos. Mas até que ponto a racionalidade – e não o instinto – nos transforma em monstros? Essa é a questão principal do novo filme do diretor mexicano Guillermo Del Toro: ‘A Forma da Água’.

Tudo é muito claro desde a primeira cena, quando o narrador da trama já questiona quem realmente se aplica ao papel de “monstro” na história que vai nos contar. A personagem principal, uma mulher muda, não usa palavras. Se expressa com suas feições. Não é uma donzela em perigo buscando por seu príncipe encantado. Ela alivia seus desejos sexuais como ou sem ele. Ela não racionaliza, age. Seu plano para resgatar o monstro marinho (objeto de seu desejo sem qualquer tipo de julgamento quanto a sua aparência monstruosa) é primário, fadado ao fracasso, mas ela não quer saber, ela quer resgatar a criatura custe o que custar.

Em contraponto, o chefe da segurança do laboratório militar vê o tal monstro como inferior, um não filho de Deus. Ele usa a violência de maneira maquiavélica para subjugar sua vítima, que não é nada além de mais um degrau na escada para seu sucesso profissional. Ele faz sexo vestido e quer que sua mulher fique calada. Ele enxerga seu carro como símbolo de status, não como um meio de transporte. Ele pode ser eu ou você.

Mas então, o que faz de nós monstros? O instinto ou a razão? A visão de Del Toro é infantilizada. E em mais de um sentido. Se por um lado sua fábula não consegue escapar do simplismo do embate de mocinhos contra vilões, por outro, enxerga com extrema beleza os males dessa nossa dualidade esquizofrênica com a inocência de uma criança, que por não racionalizar, vê no outro – independente de quem (ou o quê) ele seja – um semelhante. Alguém digno de seu amor.

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Fabio Martins
Santista de nascimento, flamenguista de coração e paulistano por opção. Fã de cinema, música, HQ, games e cultura pop.