40 anos da estreia de Alien – O Oitavo Passageiro

No dia 22 de junho de 1979, o primeiro filme de “terror espacial” chegava aos cinemas norte-americanos. Dirigido por Ridley Scott, “Alien – O Oitavo Passageiro (Alien, 1979)” é um marco na história do cinema. Assustador, tenso, equilibrado, quebrador de paradigmas, protagonizado por uma mulher, com um belíssimo roteiro, uma metáfora impressionante, ótima direção e um visual apavorante e espetacular, ele é impecável. Um trabalho maravilhoso que gerou diversas continuações, migrou para diferentes áreas, revelou um universo compartilhado e fez um crossover com outro icônico personagem: o Predador.

No começo de Alien – O Oitavo Passageiro, somos apresentados à nave de carga Nostromo e sua tripulação formada pelo capitão Dallas (Tom Skerritt), a piloto Lambert (Veronica Cartwright), o imediato Kane (John Hurt), o cientista Ash (Ian Holm), os engenheiros Brett (Harry Dean Stanton) e Parker (Yaphet Kotto), além da terceira tenente e estrela da saga, Ellen Ripley (Sigourney Weaver). O ritmo lento, calmo e silencioso é perfeito para colocar o espectador no clima espacial e prepará-lo para o terror que está por vir.

Ao receberem um comunicado da “Mãe”, o computador de bordo que auxilia a Nostromo, sobre um possível pedido de ajuda vida de um local desconhecido, eles partem para LV-426. Lá, nós somos apresentados a uma das principais virtudes da saga Alien: o visual deslumbrante e perturbador do icônico artista plástico suíço Hans Rudolf Giger, que tinha uma estética única que explorava ao limite tanto o horror quanto o erotismo, e em algumas vezes, os dois juntos. Os cenários da Nostromo, do ninho criado pelo Alien no planeta desconhecido, da nave e piloto lá encontrados, o “facehugger” e o “xenomorfo”, são impressionantes e o conjunto deles no filme é simplesmente espetacular.

EM LV-426, Dallas, Lambert e Kane fazem um reconhecimento do local e o imediato da Nostromo acaba sendo atacado e voltando com o “facehugger”, o “oitavo passageiro” grudado em seu rosto e transformando-o no hospedeiro que dará vida ao “xenomorfo” que vai aterrorizar o restante da tripulação.

Quando a criatura enfim ganha vida e o perigo vai aumentando, Ridley Scott acelera filme, mas não muito. Ele trata Alien como uma experiência claustrofóbica e sufocante, fazendo com que o espectador percorra os corredores escuros, longos e estreitos da Nostromo com os tripulantes que tentam sobreviver à caçada da “máquina de matar perfeita”. Trata-se de uma verdadeira obra-prima que, além de todas essas qualidades, é ousada.

ESTUPRO MASCULINO E PROTAGONISMO FEMININO

No documentário “The Alien Saga”, o escritor Dan O’Bannon fala sobre a metáfora do filme. Segundo ele, a história é uma metáfora sobre o estupro masculino. Onde os xenomorfos são praticamente composto por fêmeas e a escolha para que um homem (Kane, neste caso) seja a vitima é justamente para coloca-lo no lugar das mulheres e sofrer o mesmo pavor que elas sentem diante da presença masculina. Por isso que a maneira da criatura se reproduzir é penetrando o hospedeiro com uma criatura fálica e levando-o a terrível consequência dessa violência: a gravidez.

A cena mais impactante do filme é justamente o “parto” de Kane na mesa do jantar, onde ele “dá a luz” ao xenomorfo que caçará a tripulação. A criatura é citada pelo cientista e androide Ash como “o bebê de Kane” e quando ele caça os outros tripulantes na fase adulta, ele tem uma espécie de “ereção” de sua cauda na hora do abate, que representa a ereção de um estuprador diante de sua presa feminina. É importante ressaltar também que a cabeça do alien se assemelha a um pênis ereto, confirmando novamente essa teoria.

Isso nos leva a outra questão importante de Alien – O Oitavo Passageiro que é o protagonismo feminino. Ripley e Lambert são as duas únicas mulheres a bordo da Nostromo e mesmo que a personagem de Weaver seja a terceira mais importante na escala hierárquica, ela é solenemente ignorada pelo resto da tripulação, mesmo sendo a pessoa mais inteligente da nave. Nunca é demais lembrar que se eles tivessem ouvido a terceira tenente, a maioria estaria viva e a criatura morta.

A desconstrução do ambiente machista acontece justamente quando os personagens masculinos percebem que são impotentes diante dessa ameaça e Ripley assume o protagonismo do filme, pois, como mulher, está acostumada a conviver com esse pavor diariamente e sabe como lutar.

E graças ao talento de Weaver, que constrói um personagem extraordinário e quebra o monopólio masculino de estrelas de filme de ação, Ellen Ripley se torna um modelo de força feminina, influenciando diversas mulheres a encarar seus medos e atrizes a se aventurar neste segmento.

UNIVERSO COMPARTILHADO COM BLADE RUNNER

Se hoje os filmes de herói se gabam de compartilharem o mesmo universo em produções distintas, podemos dizer que eles devem isso a Alien. Embora nunca tenha sido tratado abertamente, tanto este quanto “Blade Runner – O Caçador de Andróides (1982)” (que também é dirigido por Scott) estão inseridos no mesmo universo, apesar da distancia centenária em que são retratadas as duas produções. A história de Blade Runner se passa em 2019, enquanto que a de Alien – O Oitavo Passageiro acontece em 2122.

Blade Runner se passa em uma Los Angeles futurística, com uma população formada por americanos e japoneses, que convivem em harmonia, mostrando que ambos os países estão bem unidos. Esta união serve para ligar a um detalhe mostrado em Alien – O Oitavo Passageiro: o nome da companhia dona da Nostromo é Weyland – Yutani, um nome americano e um japonês, mostrando que a os países seguem unidos após os quase 100 anos que separam as duas produções.

Em Blade Runner, uma das empresas mais importantes do país é a Tyrell Corp, que desenvolveu os replicantes para explorar e colonizar novos planetas. Com o passar do tempo, ela aperfeiçoa sua tecnologia e apresenta o “Nexus 6”, os replicantes que são idênticos aos seres humanos, que se rebelam contra seus criadores e criam o motim que os tornam ilegais na Terra. Com isso é criada a força-tarefa conhecida como Caçadores de Androides, tendo Rick Deckard (Harrison Ford) como seu principal membro.

Com isso vem um novo paralelo com Alien, cujos filmes buscam a colonização em outros planetas, a busca de um novo território a ser explorado e realizar experiências locais com sintéticos, começada em 2019 com Blade Runner. Por falar em androides, é importante lembrar que em ambos os filmes eles não são confiáveis e quando assumem consciência se voltam contra os seus criadores humanos.

Embora tudo pareça ser uma grande coincidência, a ideia do universo compartilhado ganhou força quando Alien completou 30 anos de estreia. Em um dos extras, uma cena que passa despercebida na produção original ganha destaque e podemos ver com precisão do que se trata: O arquivo de função de Dallas. No dossiê do capitão da Nostromo mostra que ele trabalhou anteriormente como entregador de cargas na Tyrell Corp.

Em Blade Runner 2049, que se passa 30 anos após os efeitos do primeiro filme, sabemos que a Tyrell foi comprada pela Wallace Corporaration, mas não existe nenhuma informação que ela tenha deixado de existir ou que tenha parado de funcionar. Lembrando que é normal quando uma grande corporação compre uma empresa menor, ela manter a empresa comprada em atividade para o desenvolvimento de projetos paralelos. Ou seja, pela idade de Dallas é possível que ele tenha trabalhado nessa fase da Tyrell transportando suas “cargas”.

Ainda em Blade Runner 2049, quando o Agente K (Ryan Gosling) conhece o salão de criação da Wallace Corporation ele vê uma linha de produção de novos sintéticos semelhantes aos engenheiros que foram colonizar um planeta desconhecido como vimos em Prometheus (o prequel de Alien, que se passa em 2093). Neste filme, o androide David (Michael Fassbender) possui todos os conhecimentos para acordar e reconectar o engenheiro e operar seus equipamentos. Dando a entender que ambos foram fabricados pela mesma empresa. Seja a Tyrell ou a Wallace.

Outro detalhe a ser observado: os sistemas operacionais dos computadores tanto de Alien quanto de Balde Runner são o mesmo. Podemos perceber isso quando Ripley usa o sistema para separar a nave de fuga da Nostromo e quando o Gaff (Edward James Olmos) usa o mesmo sistema em sua viatura para localizar o Decard.

A última peça do quebra-cabeças que une os dois universos está em Prometheus. Um dos extras do blu-ray do filme mostra uma mensagem escrita por Peter Weyland – criador da empresa que leva seu sobrenome – sobre seu falecido mentor. A carta diz o seguinte:

“Um mentor e competidor há muito tempo falecido me disse que era hora de deixar de criancice e abandonar meus “brinquedos”. Ele me encorajou a trabalhar com ele, para que juntos pudéssemos dominar o mundo e nos tornarmos novos Deuses.

 Era assim que ele administrava sua corporação, como um Deus no topo de uma pirâmide com vista para a cidade dos anjos. É claro, ele escolheu replicar o poder da criação de uma forma não original, simplesmente copiando Deus. E olhe como as coisas terminaram para o pobre coitado. Literalmente explodiu em sua cara.

 Eu sempre sugeri que ele escolhesse a robótica simples ao invés daquelas abominações genéticas que ele escravizava e vendia fora da Terra. Embora sua ideia de implantar falsas memórias neles fosse, bem… “divertida”, colocando de uma forma educada.

Felizmente, eu escolhi uma trajetória diferente, empregando inovação e criatividade quando inaugurei a Divisão de Robótica Weyland. Mesmo nossos primeiros sintéticos apresentavam tremenda inteligência, intuição e compatibilidade, apesar de seu exterior pouco convincente. Mas agora, vários…”

Sim. Weyland está falando claramente de Eldon Tyrell e seus replicantes.

CONTINUAÇÕES

Alien se tornou um grande sucesso e gerou diversas continuações. A melhor delas disparado é “Aliens – O Resgate  (1986)”, de James Cameron. O diretor aproveita a onda belicista dos anos 80 e entrega um dos melhores filmes de ação de todos os tempos e um dos melhores da sua grandiosa carreira, misturando terror, com ficção e guerra, com o visual maravilhoso de Giger extrapolado ao limite e Sigourney Weaver cada vez mais forte e icônica.

Pela primeira vez podemos ver o alien (ou melhor dizendo os aliens) por completo, incluindo a Alien Rainha. Afinal de contas, se no primeiro filme nós vimos os ovos, no segundo, nada mais justo encontrar a criatura que os chocou. Grotesca, com um par de braços extra e uma grande crista na sua cabeça, ela é a maior, mais forte e mais inteligente xenomorfo de todas as espécies. Uma das piores criaturas da história da cultura pop.

Em 1992, o estreante David Fincher conseguiu lançar o tumultuado, picotado e desastroso “Alien³”. O filme foi tão estressante para o jovem diretor que mesmo na edição especial, onde ele poderia fazer a sua “versão do diretor”, ele resolveu nem chegar perto. Weaver só aceitou fazer o papel com uma condição: era a hora de matar Ripley.

E o motivo para o fim da tenente era o melhor possível. Durante sua hibernação entre o segundo e terceiro filme, um facehugger coloca um embrião dentro de Ripley. Mas não é um embrião qualquer, é justamente o de uma Alien Rainha. A cápsula usada na fuga cai em Fury 161, uma colônia penal habitada por homens com predisposição para o comportamento anti-social brutal, como estupro (olha o tema explorado aí mais uma vez) e assassinato. Os presos recuperam o casulo acidentado e seus passageiros. O mesmo facehugger é visto se aproximando de um cachorro e o pesadelo começa novamente.

Mataram a Ripley no terceiro filme, mas nem tanto né? Cinco anos depois ela volta a franquia, no mal acabado “Alien: A Ressurreição”, de Jean-Pierre Jeunet, usando de uma novidade científica em alta na época (a clonagem) para trazer Ripley de volta e com uma boa ideia, mas muito mal desenvolvida: A evolução do xenomorfo, graças a mistura genética do DNA da criatura com o de humanos. Pena que o resultado seja uma bagunça, que praticamente enterrou a saga que foi recuperada anos depois com os prequels “Prometheus (2012)” e “Alien: Covenant (2017)”. Scott volta agora para o último filme da saga, que unirá com os acontecimentos do filme de 1979. Mas ainda não tem data de estreia.

OUTRAS MÍDIAS

Além do cinema, Alien invadiu os vídeo games, produzindo ótimos jogos para o Mega Drive e Super Nintendo, baseados no terceiro filme e usando elementos dos anteriores. Mas o melhor deles é Alien Isolation. Disponível para Windows, Linux, PlayStation 3, PlayStation 4, Xbox 360 e Xbox One, o jogo se passa em 2137, 15 anos após os acontecimentos de Alien e 42 anos antes de Aliens. A personagem principal é Amanda Ripley, que investiga o desaparecimento de sua mãe.

Ela é transferida para a estação espacial de Sevastopol para encontrar a caixa-preta da Nostromo, apenas para descobrir que um alien tem aterrorizado a estação e matou a grande maioria da tripulação.O grande destaque do game é a reprodução da ambientação bem semelhante ao material original, respeitando o legado da franquia e se tornando um ótimo adicional para os fãs da obra-prima de Scott.

Nos quadrinhos, as saga faz muito sucesso e listamos as melhores em uma matéria na época do laçamento de Covenant, que pode ser lida aqui.

Aproveitando o aniversário de 40 anos da saga, a Fox produzidos em parceria com a Tongal e o portal IGN uma série de curtas baseadas na franquia. São seis histórias de terror e suspense, sem ligação entre si, a não ser pela presença do Xenomorfo e o protagonismo feminino. Clique aqui para assistir.

Os curtas estão fazendo bastante sucesso e prova que apesar de sofrer com excessos e péssimas ideias (como os filmes com o Predador), ela ainda é capaz de produzir boas histórias, que agradam novos e velhos fãs. Alien, para delírio dos fás, permanece indestrutível.

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Fabio Martins
Santista de nascimento, flamenguista de coração e paulistano por opção. Fã de cinema, música, HQ, games e cultura pop.